quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Entrevista ao Campeão da Províncias


“Só escrevo a partir das minhas raízes micaelenses”


Escrito por Paula Alexandra Almeida
01-Ago-2007



Acaba de editar a sua mais recente obra, vencedora da última edição do Prémio Literário Miguel Torga Cidade de Coimbra. Numa “lenta narrativa dos dias”, “A Tabuada do Tempo” percorre mais uma vez o quotidiano do escritor. As suas alegrias e angústias, amores e desamores, mas, sobretudo, a sua Ilha sem a qual, afirma, nada seria como é.

“… para Cristóvão de Aguiar, a escrita é uma catarse onde se misturam tempos e vivências, espaços e recordações, pessoas e amores perdidos ou encontrados, mundos experimentados ou imaginados”, escreve Ana Paula Arnaut no texto de introdução à obra ‘Homenagem a Cristóvão de Aguiar. 40 anos de vida literária’. “Sim, é de certo modo uma catarse. Porque tenho muitas coisas cá dentro e quando escrevo realmente fico mais calmo. É uma espécie de expulsão de fantasmas e de outros miasmas (para rimar...)”, afirma o escritor. “Mas essa catarse nunca me deixa em paz. A catarse existe quando eu estou no processo da escrita. Aí sim. Quando eu estou no processo da escrita há uma espécie de entrega total. E nestes momentos então, eu só penso na escrita, e sinto-me bem”.
Uma espécie de guerra e paz. “… não posso negar que, por vezes, encontro na escrita uma certa paz interina. Mas dá-me também muita guerra…”, escreve em ‘Tabuada do tempo. A lenta narrativa dos dias’ (pp 195), Prémio Literário Miguel Torga Cidade de Coimbra, acabado de editar pela Almedina e Câmara Municipal de Coimbra.
“Às vezes os períodos de não escrita são mais longos. E úteis porque é nesses períodos que se vai ideando aquilo que se vai escrever depois. Muitas vezes digo que escrevo a andar. Quando tenho alguma coisa para escrever a primeira coisa que eu faço é andar”. Quando estava no activo, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, fazia-o no Páteo da Universidade. “Andava às voltas, como o burro na nora”.
Agora, confessa, “estou numa fase pouco produtiva. Escrevo quase todos os dias, mas aquela escrita para dar a tal catarse está um pouco parada”. Não é a primeira vez e não será, provavelmente, a última. “Sinto-me e sento-me à borda do pânico. Por seu turno, gera outro maior e sempre por aí acima, em espiral, até ao inferno interior da culpa total por tudo quanto acontece dentro e fora de mim. Quem te manda a ti pensar que a escrita é o pão do teu supreio e a serenidade do teu espírito? E, depois, o universo e tudo quanto nele habita vai moendo e doente no tutano do íntimo. Caprichosa, a escrita. Deleita-se em vingar-se de quem dela se abeira de coração inseguro e de mãos menos limpas” (pp 17). Ou ainda “acordei de imaginação entupida. Não sei que coágulo nela se atravessou, talvez o bafor mormacento caindo sobre a Ilha e sobre o Mar. A Ilha sou eu. O mar, inventei-o!” e “a escrita, logo a seguir a mim, é quem primeiro dá o alarme e se ressente. Não sei a razão por que de repente se me arvora em inimiga, exigindo-me um corte ou uma interrupção abrupta das relações de mútua e intensa convivência” (pp 19).
E foi desde a homenagem que lhe prestaram. Em 2005. Quatro décadas depois do início. “Porque realmente isto é um pau de dois bicos. As homenagens prestadas em vida constituem um pau de dois bicos. Não quer dizer que as pessoas não fiquem contentes. Em Portugal costuma dizer-se que as homenagens são sempre póstumas e que não deviam ser. Bom, esta não foi póstuma, espero ainda viver alguns anos, mas abalou-me. Abalou-me bastante porque pensei: e agora? Pensando justamente que todas as homenagens que se faziam em Portugal eram exactamente ou póstumas ou quando a pessoa já estava no fim, interiorizei qualquer coisa que me fez mal”. Foi como se se tivesse fechado um ciclo.
“Aqui as homenagens têm ainda esse carácter agoirento — faz arrepiar. Não se sabe bem se elas a atraem, se, quando se fazem, já assentam os seus pilares no movediço terreno que serve de cama ou de porta à fechadura da vida” (pp 148). “A pessoa fica um pouco abalada. Não quer dizer que eu não tivesse gostado. Naqueles dias andei eufórico”, recorda.

“Uma obra nunca está acabada”

O início foi conturbado, em 1965, algures em Março, um par de semanas antes de partir para a guerra colonial. Numa pequena autobiografia incluída no livro de homenagem, o próprio Cristóvão de Aguiar escreve que “o nascituro merecia desmancho, em boas condições higiénicas, numa especializada clínica das letras, mas acabou por ser dado à luz, ficando para sempre um aborto com cara de livro”. O crítico de então também não perdoa: “Então este homem atravessou todo o curso dos liceus sem se lhe ter deparado um professor de Português que lhe desbastasse nas redacções este estilo de «selecções femininas»?”. Hoje, Cristóvão de Aguiar afirma que foi um livro fraco, um livro incipiente. “Não gostei do livro. É um livro que repudio, embora não se deva repudiar um filho. Mas não é um livro conseguido. Se eu só tivesse feito aquilo não interessava nada”.
Treze anos mais tarde, a pretexto de ‘Raiz Comovida’, os críticos escrevem que o seu estilo surpreende pelo domínio do idioma, pela mobilidade sintáctica e pela orquestração frásica. “Eu tive sempre dentro de mim o desejo de escrever. Aos 37 anos não tinha publicado nada, a não ser dois livritos que não significam nada. Mas queria escrever qualquer coisa que a crítica não classificasse como um livro promissor. Comecei então a tirar de mim próprio. ‘Raiz Comovida’ é um livro que é arrancado de mim. Ao fim e ao cabo, aquilo tudo foi vivido de perto, ou escutado de perto, por mim. Infância, adolescência e idade adulta”.
Foi muito bem recebido e elogiado pela crítica. Ganhou o Prémio Ricardo Malheiro da Academia de Ciências de Lisboa. “E isso também anima bastante”. Com o tempo conseguiu um estilo próprio, que já está isolado. “No início, a pessoa escreve ao estilo do último escritor que leu. Creio que me autonomizei e digo isso pelas críticas que recebo”.
Mas uma obra nunca está acabada. “Sou daqueles escritores que revêem muito os seus livros. Reescrevem. Nunca publico um livro em segunda edição sem primeiro rever, e não só. Nalguns casos reescrever. Quem fazia muito isto era o Miguel Torga que tem muitas edições dos seus livros e nenhuma delas é igual à anterior. Muitas pessoas dizem: ‘Estás a perder tempo com um livro que já está escrito quando podias escrever outro’. As coisas não são assim. A pessoa não toca num botão e sai um livro. Eu gosto de reescrever. Quanto estou a fazê-lo estou a reviver tudo de novo. E há sempre mazelas. É uma espécie de um jardim que é preciso cortar, é preciso limpar e desbastar”.
“… andei entretido toda a manhã a calcorrear a Ilha da minha meninice, andei de novo a percorrê-la e percorrendo-me nos primeiros capítulos de Raiz Comovida, onde já não entrava há bastante tempo; a finalidade é dar-lhe uns pequeninos acertos, já comecei ontem o meu lavor correctivo com muito entusiasmo, apenas uns pequeninos acertos, dizia eu, para lhe lavas os olhos de algumas remelas, cortar-lhe um que outro ramo seco, nota-se a toda esta distância temporal com mais nitidez atravancando certos arruamentos da oração frásica; desejo restituir-lhe a frescura e a cadência original, se possível com maior vigor, com vista a uma futura nova edição, deste vez em três volumes, um só calhamaço como anterior não deve ser comercialmente viável nem rendível, confesso que estou revivendo tudo como se a vida se me tivesse repetido devagar, aqui sobre o tampo da secretária, meu posto de comando de todas as operações recordativas;…” (pp 279/280).

“Em Coimbra consegui ver o meu passado”

As raízes açorianas influenciam-lhe a escrita. Totalmente. “Eu só escrevo a partir das minhas raízes micaelenses. Vivi lá 20 anos e esses são os anos mais importantes na vida de qualquer pessoa. A formação, a educação, tudo isso. Isso marca. Quando vim para Coimbra, em 1960, tive um certo abalo, mas pouco tempo depois Coimbra passou a significar o objectivo para ficar aqui. Se não estivesse em Coimbra, não teria conseguido escrever os livros que escrevi. Normalmente, quando a pessoa está no meio de uma floresta, não vê a floresta completa, vê apenas as árvores que a rodeiam. Eu, em Coimbra, consegui ver o meu passado no conjunto e reelaborar”.
Porque “nenhum escritor, nenhum artista pode criar a partir do nada. Tem que escrever a partir de uma base real. Claro que essa base real não é transcrita tal e qual. Não é uma reportagem. Tem que se reelaborar, tem que se transformar, tem que se mentir, digamos assim, para ser mais verdadeiro. Porque se as coisas que acontecem são transpostas, assim, tal e qual, para um livro, o leitor pode achar que é impossível ter acontecido. Ao passo que se o escritor lhe der uma volta... o escritor tem que tornar as coisas plausíveis. Não foram assim mas poderiam ter sido”.
São três as influências assumidas na escrita e na vida. “Sempre fui mais atento ao como se escreve do que ao que se escreve. Só com Aquilino, primeiro, e Miguel Torga, depois da guerra colonial, é que tudo havia de modificar-se. O beirão, mais esparramado na sua prosa suculenta e luxuriante, cheia de ressonâncias clássicas; o transmontano, muito mais contido na sua escrita enxuta e descarnada até ao tendão. Com ambos aprendi. E também com Vergílio Ferreira, considerado durante muito tempo por alguns críticos neo-realistas um escritor menor” (pp 285).
Mas são de Torga o maior número de referências nas suas obras e até algumas coincidências na escrita de ambos, nos temas abordados. “Teve muita influência em mim. Marcou-me muito. Ainda hoje releio a obra de Torga. Leio muito Torga porque há uma identificação comigo. Trás-os-Montes, São Miguel. Podem ser muito distantes mas as vivências são muito parecidas, algumas até iguais. E depois gosto muito da maneira de ele escrever. Uma escrita muito descarnada, sem adjectivação, que vai quase ao nervo da frase. Torga era uma pessoa que trabalhava muito a prosa. Ele diz nos seus diários que muitas vezes estava uma noite inteira à procura de uma palavra. E, depois, os temas, ‘A Criação do Mundo’, por exemplo, foi de tal maneira impressionante para mim que eu tenho impressão que a ‘Raiz Comovida’ será a minha ‘Criação’. Embora na ‘Raiz Comovida’ não haja nenhuma influência, no aspecto da escrita, de Torga. Porque a pessoa, pode ter influência. Agora, há uma altura da vida, sobretudo quando a pessoa é jovem, e não tem voz própria, escreve à maneira de. Eu não escrevi à maneira de, mas a influência está lá”.
Por isso mesmo, “Miguel Torga foi um prémio que eu gostaria de ter recebido apenas pelo patrono”. Mas é um prémio que implica concorrer em original e com pseudónimo. Porquê, ao fim de quatro décadas ainda este desejo de reconhecimento anónimo da obra? “Às vezes, para ter um incentivo. Porque a minha obra vende-se pouco, sabe? Agora já não. Mas antigamente quando uma obra ganhava um prémio vendia-se mais. O que me faz concorrer a estes prémios, às vezes, e digo-o com franqueza, é a publicação do livro. Nesta altura do campeonato tenho dificuldade em conseguir editora”, confessa.
“… perguntou-lhe se sabia alguma coisa do meu livro, ao que ele lhe respondeu que estava encalhado na Quetzal e em outras editoras [...] um original de um livro que se me tem tornado num parto difícil para burro” (pp 296), “… com tanto silêncio acumulado e outras quase tantas negativas, nem esperançado sequer fico. Se calhar, nenhuma importância tem…” (pp 299).
“Isto é um hobby. Não gostaria de ser escritor profissional. Sendo escritor profissional teria a obrigatoriedade de escrever um livro e isso não seria bom para mim. Mas o prémio é exactamente isso. Um incentivo. E também ficamos satisfeitos com o reconhecimento da nossa obra”.
Escreve com o coração. Sempre. E talvez por isso lhe seja impossível escrever sobre o lugar onde está. Na sua autobiografia afirma: “Dir-se-ia que Coimbra, que também faz parte do seu roteiro afectivo e cultural, lhe forneceu a ferramenta sem a qual não poderia carpinteirar a escrita nem ordenar o seu desordenado pensamento. Quarenta e cinco anos de convívio, cumplicidades, amores e desamores, alegrias e tristezas, deram para uma vida quase cheia de pouco. O bastante para que vá pensando em fechar o círculo, regressando ou não às raízes comovidas. Pode ser que, nessa remota origem, Coimbra se lhe imponha de tal sorte que tenha de escrevê-la, a ver se a sente mais aquietada dentro de si. O mesmo aconteceu com a Ilha, em Coimbra. Desinquietou-o de tal maneira que não teve outra alternativa que fosse a de a ir entretendo com meia dúzia de livros que, por sinal, nunca a aplacaram por inteiro”.
Escrever os Açores ajuda, assim, a ultrapassar a distância. “Houve uma altura em que estive afastado fisicamente dos Açores. Intelectualmente e mentalmente estou sempre lá. Nunca saí da Ilha. Mas houve uns anos em que ia pouco lá, até porque quando lá voltava nunca encontrava aquilo que tinha deixado e que eu tinha sempre na cabeça. Isso chocava-me. De tal modo aconteceu, que eu, que tenho necessidade de mar e de viver na Ilha, fiz uma transferência para o Pico, onde fiz uma casa. Não é a minha terra, não foi a ilha onde nasci, não conheço ninguém, nenhuma pessoa para mim tem passado. Enquanto que na minha Ilha, as pessoas têm um passado para mim e eu tenho um passado para elas e isso, às vezes, causa uma certa confusão. Não me sentia muito bem em São Miguel”.
Escrever no lugar onde se está, com a ambiência desse lugar, é difícil. Não se vê a floresta por causa da árvore. “O Vergílio Ferreira é que dizia isso muito bem. Quanto mais longe está melhor se vê. É dos escritores que melhor escreveu sobre Coimbra e não o fez cá. No local onde se vive é difícil escrever ficção”.


Perfil

Açoreano e comendador

Cristóvão de Aguiar nasceu no Pico da Pedra, ilha de São Miguel, em 1940. Frequentou Filologia Germânica, em Coimbra, curso que interrompeu para tirar o de Oficiais Milicianos. Em 1965 partiu para a Guiné, deixando o livrinho de poemas, “Mãos Vazias”, publicado. Regressado em 1967, concluiu o curso, leccionou em Leiria e voltou a Coimbra para apresentar a sua tese de licenciatura, “O Puritanismo e a Letra Escarlate”.
Foi redactor da revista Vértice, colaborador, depois do 25 de Abril, da Emissora Nacional com a rubrica "Revista da Imprensa Regional" e leitor de Língua Inglesa na Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra.
Em Setembro de 2001 foi agraciado pelo presidente da República com o grau de Comendador da Ordem Infante Dom Henrique. Em 2005 foi homenageado pela Universidade de Coimbra pelo seus quarenta anos de vida literária, tendo daí resultado o livro “Homenagem a Cristóvão de Aguiar. 40 anos de vida literária”, coordenado por Ana Paula Arnaut, com todas, ou quase todas, as críticas feitas à obra do autor no decurso dessas quatro décadas
.


E ainda…

“Devia principiar esta escrita por falar do tempo. Maneira de aquecer e preparar a palavra, para que ela execute com arte a dança do ventre no palco da página. Não sei se o faça ou não. Faz muito vento. Assobiante! E frio. É precisa disciplina e trabalho sem rede, para haver entusiasmo.”

“Os galos apresentaram-se roucos ao concerto da manhã abetumada. Bem os ouvi num esforço de aplaudir o Sol. Os cânticos chegaram a vir empoleirar-se no peitoril da janela. Sem nenhuma cumplicidade comigo. Acordara sem melodia no miolo do meu descampado. Não fui capaz de os mandar entrar e de os recolher em agasalho de poesia.”

“Ouço o sol brincando em silêncio num retirado recanto do jardim. Por vezes sabe-me a som. Tanto desejava compartilhar este secreto sol que esbraseia o meu saboreá-la. Repouso o coração no sanguíneo desfecho da tarde relvado de memória. Andarinhocos empoleiram-se no telhado da casa enquanto retiro pétalas às palavras.”

“[…] é ambulando que me acodem as boas ideias e a escrita se inicia no seu deslumbramento, o verdadeiro, sem papel nem computador — a pena electrónica do nosso tempo — a delimitar o voo da palavra no ecrã!”

“A minha verdadeira vocação seria trabalhar num porto ou aeroporto, a embarcar-me e a desembarcar-me na pessoa dos outros passageiros e lá de vez em quando a ir no lugar deles… Ponto final!”

“Não sei ao certo — os poetas usam relógios interiores que indicam horas diferentes: umas mais cheias, outras mais vazias, pouco monta — mas, à humana hora rotineira em que os pêndulos vulgares fazem oscilar o tempo por que se regulam os mortais, acordei em sobressalto, como se me tivessem arrombado a porta.”

“Aqui em frente do ecrã do computador há não sei quanto tempo e sem conseguir pescar uma palavra das muitas que sinto a correr pela ribeira que nasce e desagua em mim.”

“Vou-me agora de abalada em cata dos passos que hei-de percorrer, na esperança de que eles pouco a pouco me devolvam o quinhão de música a que tenho direito. Depois escrevo. Se o não fizer, não cai o mundo das alturas.”

in “A Tabuada do Tempo. A lenta narrativa dos dias”Prémio Literário Miguel Torga Cidade de Coimbra Almedina, 2007

1 comentário:

Fernando César disse...

Vou comprar.

Cyrano de Bergerac

Cyrano de Bergerac
Eugénio Macedo - 1995

TANTO MAR

A Cristóvão de Aguiar, junto
do qual este poema começou a nascer.

Atlântico até onde chega o olhar.
E o resto é lava
e flores.
Não há palavra
com tanto mar
como a palavra Açores.

Manuel Alegre
Pico 27.07.2006