terça-feira, 7 de julho de 2009

A "Maria dos Caracóis", deu-se ao trabalho de copiar esta magnífica passagem do Relação de Bordo I (1964-1988) de Cristóvão de Aguiar.

Coimbra, 24 de Agosto de 1988 -
O telefone emude­ceu. O carteiro não toca se­quer uma vez. O vento não pára. Os remédios não reme­dei­am. A dor de cabeça não esmo­rece. O Sol esqueceu-se do ofício e meteu folga. O silêncio não se constrói nem me destrói. A música não apazigua. Os jornais gri­tam que não querem ser li­dos. A espe­rança não esperneia. O calor tem frio. O frio tem fome. A fome tem sede. A sede está farta. As ideias embran­que­ceram. As pa­lavras en­louqueceram num hospí­cio de bolor esverdeado. O livro está atravessado no útero e não pede para nascer. Os amigos estão mor­rendo. A guerra nasce das entra­nhas do ouro ne­gro. Os filhos não se deixam filhar. As filhas idem aspas, mas as­pando. A poesia vi­rou car­raça em pêlo de cadelinha. A li­teratura teve mais sorte e caiu numa pane­linha. A chuva es­queceu-se de se molhar. O corpo é um copo sem espírito de be­bida. Os olhos suici­da­ram-se. A boca caiu na li­xeira. As horas não oram. Os minu­tos não minutam nem deixam minutar a minuta de um sonho. O Sol sujou-se. O céu caiu de susto. O pe­sa­delo não se assustou. O sonho sustou-se. Os olhos cabe­ceiam de sono. As mãos pe­di­ram memória a juro porque não pagam juros de mora. As pernas colunizaram-se sobre os pés. Os pés pediram tré­guas e não sa­pateiam. A sapateia dançarilha no chão do longe. O longe é uma parte da partilha ainda es­parti­lhada.A saudade é uma Ilha rodeada de ti. A Ilha veio pernoitar em tua cama e lá se deixou noivar. Os mortos não se cansam de vi­ver nem os vivos de apo­drecer. A morte anda a cavalo nos pon­tei­ros do relógio. O relógio faz que anda, mas, no íntimo, galopa. Os dias resfol­gam nos cavalos da noite. A noite de­bate-se no cre­púsculo caído. As nuvens entupiram os caminhos da viagem. A viagem per­deu o navio e dei­xou-se fi­car no cais. O comboio não pára no apeadeiro que me coubeO bi­lhe­te que tirei tem uma data falsa. Todas as datas são falsas sobretudo as dos ani­ver­sários. Ani­ver­sariar é o modo conjuntivo desconju­gado num tempo in­definido. Conti­nuo es­perando di­ante do espelho que a minha ima­gem espe­lhada se metamor­foseie na tua para nela me aposentar. O amor não se cansa. Assim seja!

Cristóvão de Aguiar in “Relação de Bordo” (volume 1)

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Diário Económico. 03-06-2009. Entrevista de Aguiar-Conraria.






"Devíamos baixar os impostos"
sexta-feira, 03-07-2009
Diário Económico

"Devíamos baixar os impostos"

O especialista em macroeconomia não culpabiliza este Governo, mas identifica pelo menos um erro crasso.

Margarida Peixoto margarida.peixoto@economico.pt

Luís Aguiar-Conraria, professor na Universidade do Minho, identifica os principais problemas da economia portuguesa e aponta alguns caminhos para a saída da crise.

DE- Como deverá ser o plano de saída da crise do próximo Governo?

AC- Portugal vive duas crises: a internacional, que começou no ano passado, e a nacional, que vinha desde 2001. As medidas para sair de uma crise, agravam a outra.

DE- Pode dar um exemplo?

AC- Todos os grandes investimentos do Estado - TGV, aeroporto, auto-estradas -, são a receita típica macroeconómica: em períodos de crise, com taxas de juro muito baixas, aumenta-se o investimento público. O problema desta solução é que vai agravar a crise nacional.

DE- Porquê?

AC- Se não existisse a crise internacional, Portugal precisava de investir fortemente em sectores de bens transaccionáveis, para exportar mais e importar menos. Com as grandes obras, aposta em sectores que não concorrem com o exterior.

DE- Em que é que o país se devia concentrar?

AC- Devíamos guardar o que temos para solidariedade, garantindo o acesso ao subsídio de desemprego para todos. Não podemos resolver a crise internacional, por isso devemo-nos preocupar com a nacional e evitar que milhares de pessoas entrem na pobreza. Em vez dos grandes investimentos públicos, devíamos praticar uma política expansionista: baixar os impostos, para aumentar o rendimento disponível.

DE- Mas se as pessoas pouparem mais, o consumo não cresce...

AC- É verdade. Mas se baixar impostos apenas aos mais pobres isso já não acontece. Por exemplo, criar um escalão negativo de IRS, para salários muito baixos em que as pessoas sejam subsidiadas pelo Estado, aumenta o consumo. Outra hipótese, adoptada no Reino Unido, é baixar o IVA apenas por um ano: para usufruir da baixa do IVA, os consumidores gastam.

DE- O que se pode fazer do lado das empresas?

AC- O IVA já tem um efeito: podem vender os produtos mais baratos, ou aumentar as margens de lucro. De resto, não há muitas mais possibilidades. As taxas de juro já estão o mais baixo possível.

- Quais são os principais desafios da próxima legislatura?

- O problema microeconómico é a falta de produtividade. O desafio macroeconómico é o brutal desequilíbrio externo, conjugado com o desemprego e o défice elevado. Não tenho a receita para isto. Sempre que penso numa política adequada para resolver uma destas frentes, parece-me que prejudica as outras. Eu não gostava de ser político.

- Este Governo deixou uma herança pesada?

- A herança é pesada. Mas se fosse outro Governo, também seria. Não o culpabilizo. Este Governo fez algumas reformas que podem ser positivas, como a da Administração Pública, consoante os resultados da implementação.

- E houve algum erro crasso?

- O erro mais óbvio foi ter-se avançado para o TGV. Não encontro nenhuma racionalidade económica.

Luís Aguiar-Conraria
Professor Auxiliar
Departamento de Economia
Universidade do Minho
http://aguiarconraria.googlepages.com/

terça-feira, 30 de junho de 2009

A faculdade de Economia de Coimbra ficou muito atrás da Universidade do Minho.

















Universidade de Coimbra...,just Fair.

Parabéns à UNIVERSIDADE DO MINHO
_Excelent!

domingo, 21 de junho de 2009

"Relação de Bordo", Bristol, Rhode Island, 1973. My pre elementary school lunch box, chosen by me.

Coimbra, 13 de Janeiro de 1973.





















"Às 14h40m levantou voo o avião que levou o meu filho Zé para a América. Para ele, viajar para o outro lado do mar ou para casa do vizinho, não existe qualquer diferença. Quando, às 13h10m, os altifalantes chamaram os passageiros para bordo, senti qualquer coisa a despedaçar-se dentro de mim e não consegui reter as lágrimas. Ele, impávido, correu de mão dada com o tio Francisco para a porta de embarque e acenava com a outra mãozita, firme, como que aconselhando-me calma e coragem. Durante a viagem de Coimbra para Lisboa, falou pouco, mas, de vez em quando, saía-se com uma das suas. De uma vez disparou, a experimentar como iam os ânimos: Se não quiser ir, o que é que acontece?. Tomava pulso à possível reacção dos pais e salvaguardava a sua hipotética desistência à hora da partida. Esperei que o avião descolasse. Uma hora mais tarde, fez-se à pista e, pouco depois, ergueu-se no ar. Já no alto, sempre a subir, tive a impressão de que uma parte de mim se havia desprendido do meu corpo e corria, louca, pelo céu fora, em cata de qualquer coisa de mais puro, mais livre, menos cinzento do que este bloco de nuvens que se vem aproximando com cara chapada de chuva e de tristeza."

Cristóvão de Aguiar, in Relação de Bordo 1964-1988.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

TURISMO COIMBRA: "Cozinha de escritores" Eça; Torga e Cristóvão de Aguiar à mesa de 22 restaurantes de Coimbra, de 3 a 12 de Julho.

Escrito por Andrea Trindade
Coimbra animada em Julho
"Cozinha de escritores"

«Consolava-se então com regalos de gulodice. Durante todo o dia debicava sopinhas, croquetes, pudinzinhos de batata. Tinha no quarto gelatina e vinho do Porto. Em certos dias mesmo queria caldos de galinha à noite». Assim escrevia Eça de Queirós em “O Primo Basílio”, numa das muitas referências que, na sua obra, faz aos prazeres da boa mesa. A gastronomia e a sua arte pontuam também a escrita literária de Miguel Torga ou, nos contemporâneos, de Cristóvão de Aguiar. Todos têm em comum uma ligação à cidade do Mondego e foi por isso que as suas obras foram escolhidas como mote para a primeira edição da “Cozinha de Escritores”, um evento organizado pela empresa municipal Turismo de Coimbra (TC).

A semana gastronómica decorre de 3 a 12 de Julho e conta já com a adesão de 22 restaurantes da cidade, que vão recriar e reinventar os pratos tradicionais portugueses descobertos na obra destes três escritores.

Reiterando a importância da gastronomia na promoção turística, Luís Alcoforado, presidente da TC, explicou ontem, na sessão de apresentação do evento, que esta «ideia agregadora, mobilizadora e expressiva» surge da colaboração com o Mestrado de História da Alimentação da Faculdade de Letras de Coimbra (FLUC), da disponibilidade da Escola de Hotelaria e ainda da adesão da Associação de Industriais de Hotelaria e Restauração do Centro.

O responsável desta associação, José Pires, aplaudiu a iniciativa - «ainda mais importante no tempo de crise que atravessa a restauração» - e lançou o desafio de participação a todos os colegas do sector. «É bom que Coimbra acorde e trabalhe a gastronomia», sublinhou.
Albano Figueiredo, docente da FLUC e responsável pela investigação literária, garantiu que, do arroz de favas que Eça descrevia em “A cidade e as Serras” ao arroz doce e aos pêssegos abobrados, passando pelos carolos e pão de trigo de Torga ou os charrinhos assados na sertã de Cristóvão Aguiar, «há dezenas de pratos para todos os gostos e para todas as bolsas».

Restaurantes assinalados
Ao chefe Luís Lavrador coube pegar na recolha feita e sistematizá-la transformando-a em receitas. Ainda assim, o desafio de recriar fica entregue a cada um dos restaurantes, que apresentarão diariamente dois ou três pratos diferentes, dentro da “Cozinha de Escritores”, e ao preço que estipulem. Os restaurantes aderentes estão dispersos por Coimbra e exibirão uma sinalética alusiva ao evento no exterior, disponibilizando a quem degusta os pratos as respectivas passagens literárias onde surgem mencionados.[...]
In Diário de Coimbra de 19-06-2009.
RESTAURANTES ADERENTES
Panorama | Hotel D. Luis
Quinta da Várzea
3040-091 Coimbra
T. 239 802 120 | M. mauro.mota@hoteldluis.Diariamente das 12h30 às 15h30 e das 19h30 às 22h30

Magistrado | Hotel Tryp Coimbra
Av. Armando Gonsalves, LT. 20
3000-049 Coimbra
T. 239 484 658 | M. elisabete.magistradohotel@sapo.pt
Diariamente das 12h30 às 15h e das 19h30 às 22h

Colo da Garça | Hotel D. Inês
Rua Abel Dias Urbano, Nº 12
3000-001 Coimbra
T. 239 855 800 | M. direccao@hotel-dona-ines.pt
Aberto 24h

Porta Férrea | Hotel Tivoli Coimbra
Rua João Machado, Nº 4-5
3000-226 Coimbra
T. 239 826 934
Diariamente das 12h30 às 15h e das 19h30 às 22h

Arcadas da Capela | Hotel Quinta das Lágrimas
Rua António Augusto Gonçalves
3041-901 Coimbra
T. 239 802 380
Diariamente das 12h30 às 14h30 e das 19h30 às 22h30

A Petisqueira do Terreiro
Terreiro da Erva, 20. r/c
3000-153 Coimbra
T. 918 928 796
Diariamente das 9h às 24h

Adega Típica A Pharmácia – 7 Sabores de Aldeia
Rua do Brasil, 81/85
3030 – 175 Coimbra
T. 239 703 193
Diariamente das 12h às 2h

A Taberna
Rua dos Combatentes da Grande Guerra, 86
3000 – 181 Coimbra
T. 239 716 265 | M. ataberna25anos@gmail.com
Das 12h30 às 15h e das 19h30 às 22h30; encerra domingo ao jantar e segunda ao almoço

Cantinho do Reis
Terreiro da Erva, 16
3000 – 153 Coimbra
T. 239 824 116
De segunda a sábado das 12h às 16h e das 18h às 24h

Carmina de Matos
Praça 8 de Maio, 2-10
3000 – 300 Coimbra
T. 239 823 510 | M. carminadematos@iol.pt

Das 9h às 24h

Churrasqueira da Cidreira
Estrada Nacional 111 – Cidreira
3025 – 654 Coimbra
T. 239 961 215
Das 7h às 24h

Colher de Pau
Rua do Brasil, 56
3000 – 775 Coimbra
T. 239 403 544 | M. j-merces@hotmail.com
Diariamente das 12h às 16h e das 19h às 23h

Cova Funda “O Espanhol”
Rua da Sofia, 117
3000 – 390 Coimbra
T. 239 825 195
Diariamente das 8h às 24h

D. Pedro
Av. Emídio Navarro, 58
3000 – 150 Coimbra
T. 239 829 108
Diariamente das 10h às 24h

La Fiesta
Rua do Carmo, 54 - Loja 4
3000 – 064 Coimbra
T. 239 821 246 | M. rest.lafiesta@gmail.com
De segunda a sábado, das 10h às 24h

Nacional
Rua Mário Pais, 12 - 1º
3000 – 300 Coimbra
T. 239 829 420 | M. restaurantenacional@sapo.pt

De segunda a sábado das 12h às 15h e das 19h às 24h

Novo Rest | Eurest/Makro
Vale das Flores, Edifício Makro
3030 – 191 Coimbra
T. 239 702 056 | M. novorest.coimbra@eurest.pt
Diariamente das 7h às 22h

O Porquinho
Quinta da Ribeira, 1 Coselhas
3000 – 125 Coimbra
T. 239 494 036 | M. geral@oporquinho.com
Diariamente das 12h às 15h e das 17h às 24h

Praça do Marisco
Rua João de Deus Ramos, 145
3030 - 328 Coimbra
T. 239 403 384 |M. pracadomarisco@hotmail.com
Diariamente das 12h às 15h e das 18h às 24h

Quinta da Romeira
Rua António Pinho Brojo, lote 56 - Urb. da Romeira
3030 – 116 Coimbra
T. 239 781 301 | M. quintadaromeira@sapo.pt
De terça a sexta das 19h30 às 23h30 (almoços para grupos mediante reserva); sábado e domingo das 12h30 às 15h30 e das 19h30 às 23h30

A Portuguesa
Parque Verde
3000 – 476 Coimbra
T. 239 842 140

Restaurante da Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra
Quinta da Boavista
3000 – 076 Coimbra
T. 239 007 000 | M. ehtcoimbra@turismodeportugal.pt
De segunda a sexta-feira, das 13h às 15h

Cyrano de Bergerac

Cyrano de Bergerac
Eugénio Macedo - 1995

TANTO MAR

A Cristóvão de Aguiar, junto
do qual este poema começou a nascer.

Atlântico até onde chega o olhar.
E o resto é lava
e flores.
Não há palavra
com tanto mar
como a palavra Açores.

Manuel Alegre
Pico 27.07.2006