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Como leitores constantes de Cristóvão de Aguiar, fomos lendo páginas exemplares, motivadas por esses animais intuitivos, que surgiram na sua obra, desde a primeira narrativa – os cães. Quem pôde esquecer a morte da Girafa, a cadela dócil, em Raiz Comovida, ou o parto da Andorinha, no abrigo do alferes e de um sargento, em plena Guerra Colonial, de Ciclone de Setembro? Agora, somos presenteados com Cães Letrados, uma obra em que o escritor reuniu “os textos extraídos, com ligeiras alterações, de vários livros, narrando histórias de cadelas ou de cães”. Os desenhos de André Caetano vieram retratar com sensibilidade e fidelidade à narrativa esses peculiares bichos que dão pelos nomes de Monalisa, Adónis, Ísis, Schwarz, Petruska, ou então, Isquininho, Ligeiro, Valente, Pantera, ou ainda, numa designação de classe, cães de esplanada, cães universitários, cães cantores… O título Cães Letrados, numa ambiguidade irónica, possibilita uma leitura que faz ascender estes canídeos ao estádio das “Belles Lettres”, como personagens que usufruem de pleno direito do seu estatuto, nas diversas narrativas, ou uma outra interpretação para a qual contribui a significação caricatural de “cães universitários”, aqueles que o autor concebe com a dose de humor, por vezes sarcástico, a que vota todos os exageros do academismo e seus tiques.
“A minha atracção pelos cães é muito antiga” – declara o autor ficcionado em Relação de Bordo, ao referir-se à Exposição Canina Internacional de Coimbra, em que assiste ao certame, manifestamente surpreendido com a classificação do júri. E diz-nos:
De qualquer modo, havia, na exposição, canzoada para todos os gostos. Só que muitas vezes assim não entendia o júri, que classificava exemplares que eu eliminaria. (…) O José Jacinto é que acertava quase sempre, poucas falhou, e mesmo, quando falhava, o que escolhia era sempre bem classificado. (p. 69).
Mas não é deste entendimento que se ocupa o escritor, sempre que pretende enveredar o leitor pelos meandros da personalidade, dos hábitos, dos instintos, dos traços inigualáveis da “canidade”. Como criador da língua, explica o seu neologismo: «…dez anos de canidade: equivale a cerca de setenta de humanidade.” (p.61).
A condição canina é, assim, a temática recorrente nas narrativas que dão corpo a este livro. Estabelecendo relações paradigmáticas entre as manifestações da canzoada e a actuação dos humanos, o narrador, ora protagonista ora participante, demonstra a sua afectividade, verdadeira predilecção, pelos vários exemplares que vão surgindo na efabulação.
Saboreie-se o paralelismo de condição e de expressão quando se lê: “Restam agora a Tina, a Monalisa, a Eunice, o Adónis e o Pitão, diminutivo de Capitão, já com onze anos de casa, cama, mesa e pêlo esfregado…”(p.61). Ou então a situação do cachorro leitor, um husky que viajando no Inter-Regional, ao lado de uma futura médica, “ ia partilhando a leitura com a fortuita companheira de viagem com muito entusiasmo e compenetração”(p. 55). A situação tão pitoresca é narrada com toda a convicção:
A estudante que se sentou ao lado do Alex abriu uma sebenta, Lições de Pediatria, pude ler na capa. Pouco depois, vi eu com estes olhos o cachorro passando as páginas ao livro com a patinha direita. Esperto como é, viu logo que se tratava de matéria médica que lhe interessava por se tratar da fase etária que atravessava. (…) Só visto. Quando ambos chegavam ao fim da página, o cachorrinho apressava-se a virá-la delicadamente, a fim de continuar a leitura da matéria pediátrica. (p.55).
Aliás, este cachorro é o Adónis, cujo nome original que constava na cédula de nascimento foi para o narrador motivo de preocupação.
Ficou Adónis, o nome do velho deus babilónico da fertilidade, depois adoptado pelos gregos que o colocaram na sua mitologia com ademanes efeminados, simbolizando a beleza juvenil. Apesar de aparentemente fortuita, esta circunstância tornou-me meio apreensivo. Estando ainda o infante naquela idade em que o sexo é indefinido, poderia acontecer que, no momento da aclaração, tanto pode cair para um lado como para aquele de onde nunca mais se logra sair. E, confesso, sem qualquer preconceito sobre a orientação sexual de cada um, que não gostaria de o ver mais tarde num programa televisivo, já adulto e homossexual assumido, ladrando contra a repressão exercida pelo espírito machista da maioria da canzoada… (p. 52).
É nesta cumplicidade entre o narrador, o autor ficcionado e os sujeitos da fábula que se estabelece, na matéria narrativa, a essência da “canidade”. Quantas vezes surpreendemos a simpatia manifestada pelos cães vadios de primeira geração, legítimos, “os mais idóneos”, a demonstrar a sua supremacia face aos humanos, pela inteligência e aceitação com que jogam contra a adversidade: «Ninguém melhor do que eles conhecia os sinuosos meandros da desfortuna… Garantia-lhes um sentido prático e tolerante da existência inçada de percalços.» (p. 93). A racionalidade, apanágio dos homens, evidencia-se como a qualidade mais surpreendente na condição canina, graças a esse olhar profundamente intuitivo e sensível com que Cristóvão de Aguiar perscruta os seres, aliando ao plano dos afectos um sentido transcendente que recria o mundo com novas significações.
Tornei-me leitora assídua deste escritor, ilhéu como eu, depois de ter lido páginas de rara beleza literária, que me foram comovendo intensamente, à medida que acompanhava o sentir do rapazinho a quem coube a nefasta incumbência de abandonar a adorada “cadela branca, atravessada de galgo” aos braços da Morte. Não sei se me rendi à súplica do olhar da Girafa, se me fixei na impotência das lágrimas que lhe responderam, o certo é que dei comigo arrepiada de emoção, por entre o marulhar das palavras daquele narrador já distanciado da infância gravada a fogo na sua alma. Parei - atitude impulsiva, sempre que se interroga a nossa consciência, ao sermos confrontados com a excepcionalidade. E até hoje, volvidos mais de quarenta anos, apesar de reconhecer qualquer página de Cristóvão de Aguiar pela sua prosa única e inconfundível, nunca mais me esqueci desse momento de sorte – a escrita tornada comunhão perfeita. Foi a descoberta de um grande escritor, que já começava no plano da genialidade, e que passou a contar comigo no universo dos seus leitores incondicionais. Não admira, pois, que Fernando Namora, numa carta que lhe enviou, agradecendo a oferta do volume de Raiz Comovida, comentasse: « O episódio da Girafa é uma obra-prima. Ele bastaria para fazer um livro e afirmar um autor.» Vejamos como é justa esta opinião.
Ao contrário de outros cães mais proletários, não tinha a Girafa por costume assistir à missa do padre João. Em matéria religiosa tornara-se no pior que se podia acoimar em Tronqueira, uma Adventista do Sétimo Dia… Consciente da sua heresia e não querendo assumir responsabilidades quanto ao destino da sua alma de cadela, fui um dia à nossa Igreja, a horas mortas, munido de uma garrafinha de pirolito. Enchi-a de água benta numa das pias laterais onde os fiéis molham as pontas dos dedos para se benzer e esconjurar do tinhoso tentador das almas. Trouxe-a para casa às escondidas e dirigi-me à casa-de-trás e aí baptizei a cachorra com o nome que ela de resto já tinha e dava por ele quando a chamavam. Ao chegar-lhe ao focinho umas areias de sal, segundo manda a liturgia baptismal, e ao despejar-lhe, em seguida, sobre a cabeça o conteúdo da garrafa, em cruz, senti no íntimo que a Girafa se tinha humanizado e que uma alma disponível, dessas que vagueiam pelos ares desde o princípio do começo, havia descido das Alturas e incorporado-se no corpo ainda tenro da cachorra, fazendo dela o que afinal sempre fora – a Girafa! E ela foi medrando sem sustos de monta, tirante a rabugem, prontamente sarada, e outros achaques ligeiros próprios da idade. (p. 25)
Num registo totalmente distinto, usando um humor picante cheio de insinuações e subentendidos, as páginas de Passageiro em Trânsito dedicadas a Petruska são também um excelente exemplo de versatilidade narrativa. A cadelinha pekinois, que viaja a bordo do Carvalho Araújo, acompanhada pela «excelentíssima dona. Situada no terrorismo da idade e da pujança física. E proprietária de um par de coxas de refrear o fôlego» (p.160), é retratada à imagem e semelhança da dona, qual bibelô que desperta a atenção dos apreciadores. Esta, em deliciosa conversa que proporciona ao futuro doutor Afrânio Gaudêncio, no deque de primeira,
De passagem, menciona o imenso gosto da cadelinha pelas viagens marítimas. A sua profunda capacidade de estabelecer novas amizades com outros cães e cadelas, um pouco menos com estas. Têm idêntico ofício e andam em busca do mesmo. Independentemente da raça, cor ou pedigree… Claro, andava perdida de amores pelo comandante do navio. Não devia dizê-lo, mas até sentia uma pontinha de ciúme. Claro que estava a brincar. Muito gostava de se esgueirar para o camarote-suíte do senhor comandante. Cheira-lhe a farda perfumada em masculino. As cadelas sentem enorme prazer através do olfacto. Mete-se-lhe na cama, ah sua descaradona. E deixa-se ficar de barriga para o ar, recebendo carícias no baixo-ventre, sua doidinha. Não é verdade, Petruska? Sempre foste uma maluca por ternura e cócegas. Aprendeste com a dona. E ela ainda te há-de ensinar mais. (p.161).
Tão excelente simbiose entre a “canidade” e a humanidade só se torna possível graças a este cómico de situação e de linguagem, em que a animalidade e a sensualidade se confundem em idêntica essência fútil.
E o que dizer dessas páginas dedicadas aos “cães universitários”? Aqui a humanidade ultrapassa a “canidade”, nos seus intentos e expedientes. De humor pitoresco ou corrosivo, o autor ficcionado não poupa comentários irónicos a esta casta de canídeos que vagabundeia pelos pátios das faculdades.
Uma Universidade que se preza, seja ela clássica, privada ou nova, não pode dispensar os cães refastelados nos átrios das respectivas faculdades ou nos amplos passeios e largos fronteiros às entradas principais. (…) Se é certo que, após prolongada convivência, o cão toma as feições e os tiques do dono, não será menos verdadeiro que a canzoada universitária absorve as idiossincrasias das diferentes faculdades que frequentam. (p. 100).
Através da sátira impiedosa, põe-se a nu, com investidas certeiras e sarcásticas, os procedimentos e atitudes de caricatos intelectuais, vergados ao peso de um academismo bafiento. A crítica literária pretensamente hermética, espartilhada no formalismo oco das exegeses pseudocientíficas é posta a ridículo na sua verborreia absurda. Se esta afirmação pode parecer contundente, confronte-se o que diz o narrador, ao opinar sobre “os cães das Letras”:
Nos canídeos das filologias menos clássicas, notam-se certas reminiscências estruturalistas no ladrar de alto, sobretudo se trasladado para a escrita, em grelha, grelhada sobre a mesma chapa da estratégia e problemática operatória formuladas no contexto semiológico das reflexões teóricas acerca da matéria ficta do volume – palavra que não enlouqueci – em direcção ascensional ao entrecruzamento da dissenção paródica, interrogativa, inconclusa do posicionamento diegético enquanto exame da obra com vistas à prática da análise crítica e em certa medida da taxonomia semiótica desde a reflexão produzida pelo Homo Sapiens até aos nossos dias de hoje em que o arquitexto transcende o texto e como tal faz apelo à teoria, constituindo-se, portanto, num pressuposto abstracto de formas conceptuais e categoriais de certo modo reguladoras da ordenação textual em termos de conjunto totalizante, na medida em que não se furta a um grafismo de incógnita.
“Ó senhor Figueiredo, traga-me já uma água natural Serra do Trigo; estou a sentir-me com a digestão a parar, mas tenho esperança de que, com a água mineral, acabe por arrotar, o arroto é a libertação, olha que nem me apetece contemplar aquele navio desatracando-se do paredão do molhe para tomar, depois, o rumo nas rotas do mar…" (p. 102)
Ao retratar os cães que circulam nas diversas faculdades, o escritor não faz concessões, não perdoa a vacuidade e vaidade da “mísera condição”, entregue a perversidades e ao tráfico de influências, numa actuação assumida e exibicionista. Servindo-se das potencialidades da língua com magistral à-vontade, não se inibindo de dizer o que pensa, nem que para isso tenha de recorrer à expressividade vicentina, Cristóvão de Aguiar tem o verbo recheado de intermitências agudas de polémica e lucidez que castigam a sociedade naquilo que ela poderia ter de mais resguardado – a inteligência.
O que me parece que fica claro em todas as narrativas deste livro é essa capacidade de transpor para a escrita o mundo dos afectos, numa dimensão íntima, de grande autenticidade, onde a alma se derrama em lembranças, evocações, sentimentos cúmplices e de angústia, imensa ternura e uma aversão declarada à hipocrisia mundana e à intelectualidade modernaça.
Merece a pena ler (ou reler) Cães Letrados. Por se tratar de uma obra de um escritor açoriano que sempre se afirmou, nas letras nacionais, como um exímio cultor da Língua Portuguesa, recriando-a na sua diversidade e tratando-a com uma correcção clássica, no seu riquíssimo léxico, que lhe permite usar o arcaísmo ou o neologismo com a plasticidade única que a construção semântica exige, tornando-se assim um virtuoso da língua. Porque esta antologia de textos nos faz reflectir especularmente sobre as atitudes, positivas e negativas, que nos levam à conclusão de que, na fronteira entre a racionalidade e a irracionalidade se encontram muitas vezes os homens, sendo estes animais dotados de grande intuição, discernimento, sensibilidade, dedicação, fidelidade, compaixão, solidariedade, bravura, meiguice e tantas outras qualidades amplamente manifestadas na narrativa dos seus comportamentos. E ainda, por causa da edição cuidada, realçada por uma ilustração sóbria e adequada, contida no traço expressivo de André Caetano, o jovem que nos ajuda a imaginar visualmente as personagens deste livro.
Coimbra, FNAC, 6 de Dezembro de 2008
Leocádia Regalo
Escritora.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Da canidade. Ou sobre a forma de conceber a condição canina. 1.ª Crítica ao livro Cães Letrados, por Leocádia Regalo
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sábado, 6 de dezembro de 2008
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Cães Letrados. Apresentação fnac: Hoje, 01.12. SEG 22H00 Mar Shopping; 04.12. QUI 18H30 Colombo; 06.12. SAB 17H00 Coimbra Fórum

Apresentação
CÃES LETRADOS
04.12. QUI 18H30 Colombo
06.12. SAB 17H00 Coimbra
08.12. SEG 22H00 Mar Shopping
SINOPSE:
Um magnífico livro de histórias sobre cães.
Histórias comoventes, onde aprendemos coisas extraordinárias destes nossos amigos.
Por exemplo: sempre que quisermos um cão idóneo devemos adoptá-lo entre a família dos vadios de primeira geração - só estes possuem capacidade para serem amigos de verdade e dar tudo pelo dono que o escolheu.
A apresentação de Cães Letrados, em Coimbra, conta com a presença do autor e de Leocádia Regalo.
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domingo, 30 de novembro de 2008
BRAÇO TATUADO. GRANDELLA./ BLOGUE LUÍS GRAÇA & CAMARADAS DA GUINÉ.
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sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Cães Letrados, de Cristóvão de Aguiar, apresentação de Carlos Alberto Machado, na Câmara Municipal das Lajes do Pico. 17 de Dezembro, pelas 21 horas.
CRISTÓVÃO DE AGUIAR é um dos grandes nomes da literatura açoriana de todos os tempos. Em 2006, teve homenagem nacional por ocasião da passagem dos seus 40 anos de vida literária.Mãos Vazias, poesia, é a sua primeira obra, saída em 1965. Contudo, é na prosa – romance, conto e diarística – que mais se tem distinguido. A sua trilogia romanesca Raiz Comovida valeu-lhe o prémio Ricardo Malheiros, da Academia de Ciências. Relação de Bordo, cuja trilogia foi completada em 2004, foi distinguida com o Grande Prémio de Literatura Biográfica da Associação Portuguesa de Escritores, e o livro de contos Trasfega recebeu o Prémio Nacional Miguel Torga. É ainda autor de muitas outras obras, como O Braço Tatuado (sobre a guerra colonial), Ciclone de Setembro, Grito em Chamas, Passageiro em Trânsito, Marilha, Com Paulo Quintela à Mesa da Tertúlia e A Descoberta da Cidade. Um magnífico livro de histórias sobre cães.
Histórias comoventes, onde aprendemos coisas extraordinárias destes nossos amigos.
Por exemplo: sempre que quisermos um cão idóneo devemos adopta-lo entre a família dos vadios de primeira geração - só estes possuem capacidade para serem amigos de verdade e dar tudo pelo dono que o escolheu.
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quarta-feira, 26 de novembro de 2008
AMANHÃ 27 DE NOVEMBRO-Guiné 63/74 - P3363: Memórias literárias da Guerra Colonial (9): Braço Tatuado, de Cristóvão de Aguiar (José Martins)
"No final da leitura do livro Braço Tatuado ficou-me na memória a frase atribuída, na página 20(1ª edição na D. Quixote) ao homem grande de Jabicunda, quando, o Alferes Miliciano de Infantaria Arquelau de Mendonça, insistia para ser tratado por alferes: “…alfero é um, alferes é manga deles, nosso alfero...”
Na realidade, e para mim, o Cristóvão Aguiar é alfero, é um óptimo contador de histórias que, com base numa unidade, acaba por englobar as estórias que fazem parte da história de um povo."
José Martins

Braço Tatuado
Conferência de Cristóvão de Aguiar, a realizar na Biblioteca-Museu República e Resistência / Espaço Grandella, na próxima 5ª feira, 27 de Novembro de 2008, às 19h00.__________
Foi um acaso que me trouxe ao conhecimento o livro Braço Tatuado, quando, em 14 de Fevereiro de 2008, navegava na net em busca de uma outra publicação. Tudo ficou decidido nesse momento. Pouco tempo depois era retirado da estante da Livraria Bertrand no Loures-Shoping, o livro que, quase de imediato, comecei a ler.
Título: Braço Tatuado - Retalhos da Guerra Colonial
Editora: Dom Quixote, Lisboa
Páginas: 136
Colecção: Autores de Língua Portugues
Edição: 2008
Preço com IVA: 12,00 €
Na capa, no texto biográfico, é referida uma passagem por Leiria, como professor. Ora foi nessa cidade que nasci e iniciei os meus estudos. Brinquei e passeei no Jardim Público, bebi água na Fonte Grande, tomei café no Arcádia, comi Brisas do Lis… Bons tempos, de jovem e estudante.
No livro é relatada uma passagem por Nova Lamego (Gabú Sara), onde também estive como elemento da Companhia dos Gatos Pretos [CCaç 5], que mais tarde, em Agosto de 1968, rumou a Canjadude onde permaneceu até à sua extinção, em Agosto de 1974. Esta companhia era herdeira da 3ª Companhia de Caçadores Indígenas, e teve o seu quartel no local onde, com a criação do Sector Leste, ficou instalada a sede do Batalhão.
No meu livro, não editado, que intitulei de Refrega, há algumas impressões pessoais e relatos sobre estas duas localidades terra.
Na leitura do livro de Cristóvão Aguiar, estranhei o número “666”, que, como diz o autor, está em Apocalipse (13,18). Nos elementos de que dispunha e que de imediato consultei, esse número não pertence a nenhuma das unidades que serviram na Guiné.
Consultando o 8º Volume – Tomo II da CECA – Fichas História das Unidades – Guiné (página 342) e com base nas datas constantes do texto, assim como dos locais onde se desenrolaram as acções, foi fácil localizar a “Companhia nº 666” [texto em negrito].
Mas não me contentei com hipóteses. No dia 26/02/08, desloquei-me ao Arquivo Histórico Militar, em Lisboa, e pude ler e tomar notas (caixa nº 70 – 2ª Divisão/4ª Secção), com a calma que o pouco tempo de que dispunha me permitiu, da história da “666” [texto em itálico].
Companhia de Caçadores nº 800
Unidade Mobilizadora: RI 15 – Tomar
A subunidade foi formada com data de 1 de Janeiro de 1965, conforme Ordem de Serviço nº 2 de 4 de Janeiro de 1965 do Regimento de Infantaria 15 de Tomar. Destinava-se, inicialmente, ao arquipélago de Cabo Verde, tendo a partida prevista para a data de 13 de Abril de 1965.
Comandante: Capitão Inf Carlos Alberto Gonçalves da Costa, sustituído em Setembro de 1965 pelo Capitão Miliciano de Cavalaria António Tavares Martins (que tinha vindo da CCav 489/Bcav 490. Nota do editor vb).
Constituíam o quadro de Oficiais subalternos os Alferes Milicianos:
João Belchurrinho Baptista
Luís Cristóvão Dias Aguiar
João Faria Cortesão Casimiro e
João Baptista Alves
Partida: Embarque em 17 de Abril de 1965; desembarque em 23 de Abril de 1965
Regresso: Embarque em 20 de Janeiro de 1967.
Alterado o destino, a subunidade partiu do cais de Alcântara, em Lisboa, a bordo do N/M Mafalda, desembarcando em Bissau em 23 de Abril de 1967.
Síntese da Actividade Operacional
Foi-lhe inicialmente atribuída a missão de subunidade de intervenção e reserva do Comando-Chefe, tendo colaborado com a unidade de guarnição de Bissau na segurança e protecção das instalações e das populações da área e tomado parte em operações na região de Jugudul e Olom, de 10 a 24 de Maio de 1965, em reforço do BArt 645.
Maio de 1965
Dia 17 – Operação na região de Olom
Dia 21 - Operação Perdigueiro – Durante uma patrulha de combate na área de Encheia, sob o comando do Capitão de Infantaria Gonçalves da Costa, este foi ferido no tórax e pescoço com estilhaços de uma granada de mão, assim como os soldados José Francisco Pereira da Silva (nº 3788/64) e Custódio José Caetano (nº 54/64 da CArt 732).
Em 28 de Maio de 1965, como subunidade de reserva do Comando-Chefe, foi colocada em Contuboel em reforço do BCav 757, em substituição da CCaç 702, com vista à execução de patrulhamentos, reconhecimentos, protecção e segurança das populações da área, guarnecendo com um pelotão a povoação de Sonaco. A partir de 15 de Julho de 1965, cedeu ainda um pelotão ao BCav 705, o qual passou a guarnecer a povoação de Dunane, onde se manteve até 1 de Abril de 1966.
Maio de 1965
Dia 23 – Partida de Bissau para Contuboel.
Dia 29 – Chegada a Contuboel
Junho de 1965
Dia 27 – Operação Jagudi
Julho de 1965
Dia 08 - Partida de 1 Grupo de Combate para Dunane.
Agosto de 1965
Dia 10 - Operação Onça
Em 22 de Novembro de 1965, deixou de ser subunidade de intervenção do sector e assumiu a responsabilidade do subsector de Contuboel, então criado na zona de acção do BCav 757, mantendo um pelotão do antecedente destacado em Sonaco, até 1 de Novembro de 1966 e destacando outros pelotões para guarnecer as povoações de Sara Bacar, a partir de 10Maio de 1966 e de Sumbundo, a partir de 3 de Novembro de 19 de 66.
Novembro de 1965
Dia 23 - A Companhia deixou a intervenção às ordens do Comando-Chefe.
Dezembro de 1965
Dia 17 - Operação Zig-zag
Fevereiro de 1966
Dia 26- Operação Jota
Março de 1966
Dia 11 - Operação Jota II
Abril de 1966
Dia 04 – A Companhia deixou um grupo de combate em Dunane e passou a ocupar o destacamento de Sare Bacar
Dia 16 - Operação Jota III
Maio de 1966
Dia 07- Operação Intriga
Dia 10 - Operação Ibis
Dia 25 - Operação Ianque
Dia 29 - Destaca um grupo de combate para reforçar o sector de Piche
Junho de 1966
Dia 04 - Cessa o reforço ao sector de Piche
Dia 06 - Operação Isco
Dia 15 - Operação Ivan
Dia 21 - Operação Intervenção
Dia 30 - Operação Interesse
Julho de 1966
Dia 07 - Operação Insurrecto
Dia 21 – Inauguração da ponte de Contuboel sobre o rio Geba
Dia 27 – Operação Intelecto
Agosto de 1966
Dia 03 – Operação Imune
Dia 11 – Operação Intemerato
Dia 23 – Operação Japão
Setembro de 1966
Dia 05 – Operação Interlúdio
Dia 22 – Operação Intervalo
Outubro de 1966
Dia 09 – Operação Intimação
Dia 16 – Operação Impar
Dia 21 – Operação Introito
Novembro de 1966
Dia 02 – 1 grupo de combate ocupou a tabanca de Sumbundo, atacada pelo IN no dia anterior.
Dia 17 – Operação Istambul
Dia 30 – Chegada, de Contuboel, da CCaç 1588, que veio reforçar o sector
Dezembro de 1966
Dia 19 – O IN flagelou com metralhadoras e espingardas automáticas, pistolas e granadas de mão, uma força de CCaç 802, que dava protecção aos trabalhos agrículas na bolanha entre Sumbundo e Ualicunda, causando 1 ferido à população
Janeiro de 1967
Dia 02 – Chegada a Contuboel da Secção de Quarteis da CCaç 1500, que os rendeu no sector.
Em 9 de Janeiro de 1967, foi rendida no subsector de Contuboel pela CCaç 1500, recolhendo em 14 de Janeiro de 1967 a Bissau, a fim de aguardar o embarque
A Companhia de Caçadores teve duas baixas por ferimentos em combate, o Capitão Gonçalves da Costa e o Soldado Pereira da Silva.
Dos seus militares foram louvados 1 Oficial, 1 Sargento, 6 Furrieis, 9 Cabos e 16 Soldados, tendo os louvores sido atribuídos pelo Comandante da CCaç 800, do BCav 757, BCav 705 e Agrupamento 24.
Fur Mil Trms Inf
Companhia de Caçadores nº 5, Gatos Pretos
CTIGuiné/Nova Lamego e Canjadude
02/06/1968 a 02/06/1970
__________
Notas de vb:
1. artigos relacionados em
25 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2582: Notas de leitura (9): Cristóvão Aguiar, um escritor marcado pela guerra colonial (Beja Santos)
25 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2580: Notas de leitura (8): Braço Tatuado-Retalhos da Guerra Colonial, de Cristóvão Aguiar (Victor Dores / Amaro Rodrigues)
2. Cristóvão de Aguiar nasceu na ilha de São Miguel em 1940. Frequentou Filologia Germânica, em Coimbra, curso que interrompeu para tirar o Curso de Oficiais Milicianos (COM).
Em 1965 partiu para a Guiné, deixando publicado o livro de poemas, Mãos Vazias. Regressado em 1967, concluiu o curso, leccionou em Leiria e regressou a Coimbra para apresentar a sua tese de licenciatura, O Puritanismo e a Letra Escarlate.
Foi redactor da revista Vértice e colaborador, depois do 25 de Abril, da Emissora Nacional com a rubrica "Revista da Imprensa Regional" e leitor de Língua Inglesa na Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra.
A experiência da guerra forneceu-lhe material para um livro, incluído inicialmente em Ciclone de Setembro (1985), de que era uma das partes, e autonomizado mais tarde com o título O Braço Tatuado (1990) e que reeditou em nova versão.
Da sua obra, por diversas vezes premiada destacamos: Raiz Comovida I - A Semente e a Seiva (1978), Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa, Relação de Bordo I - Diário ou nem Tanto ou talvez Muito Mais (1964-1988), Grande Prémio de Literatura Biográfica da APE/CMP, Raiz Comovida: Trilogia Romanesca (2003), Trasfega - Casos e Contos (2003), Prémio Literário Miguel Torga/Cidade de Coimbra e Nova Relação de Bordo - Diário ou nem Tanto ou talvez Muito Mais (2004) e Marilha (2005), os quatro últimos publicados na Dom Quixote.
Em Setembro de 2001 foi agraciado pelo presidente da República com o grau de Comendador da Ordem Infante Dom Henrique.
Texto extraído das Publicações D. Quixote. Com a devida vénia.
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quarta-feira, 19 de novembro de 2008
"Cães Letrados" é o novo livro de contos de Cristóvão de Aguiar, com desenhos de André Caetano. Editora Calendário - 2008.
No dia 6 de Dezembro, pelas 17 h, na FNAC de Coimbra, é apresentado o livro de Cristóvão Aguiar, "Cães Letrados", pela escritora Leocádia Regalo.
INCLUI OS CONTOS: "GIRAFA" e "CÃES UNIVERSITÁRIOS".
"Um dia aconselhou-me. Sempre que eu quisesse um cão idóneo que o fosse adoptar entre a família dos vadios de primeira geração. Só estes possuíam capacidade de ser amigos de veras, dar tudo pelo dono que o elegera: da dentuça arregaçada, num sorriso de aviso à navegação, à meiguice de um lamber de mãos, passando por um roçar macio por entre as pernas…"
1.ª Edição: Novembro de 2008
Execução: ROCHA/artes gráficas, lda.
Depósito Legal: 285444/08
ISBN: 978-972-8985-29-5
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Secção: Cães Letrados, Livros, Notícias
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
II Concentração Internacional Porsche Fans Portugal no concelho do Sabugal. 29 e 30 de Novembro de 2008.

«A vida é feita de nadas: de grandes serras paradas à espera de movimento» (Miguel Torga)
A II Concentração Internacional Porsche Fans Portugal organizada pelo Porsche Fans Portugal vai percorrer o concelho do Sabugal no fim-de-semana de 29 e 30 de Novembro.
Os participantes jantar, a primeira refeição em terras raianas, está marcado para o RaiHotel seguido de um passeio a pé pela noite sabugalense.
No sábado a concentração está marcada para às 10 horas no Largo do Castelo do Sabugal com um briefing para todos os participantes seguido de uma recepção e boas-vindas por um representante da Câmara Municipal do Sabugal.
Às 11 horas a caravana parte em direcção ao complexo das Termas do Cró estando prevista uma breve paragem para visita ao local. O passeio continua em direcção a Ruivós com paragem para um Porto de Honra na sede da Associação dos Amigos local.
A Aldeia Histórica de Vilar Maior é a paragem seguinte com visita ao Museu e Igreja Matriz. O almoço está marcado para o Restaurante «Beto Martins» no Soito.
Às 15 horas será dada a partida para o primeiro carro da Prova de Regularidade que irá unir as Praças de Touros do Soito e de Aldeia da Ponte.
Após o reagrupamento de todos os participantes será tempo de rumar à Sacaparte para disputar uma prova de Slalom no parque de estacionamento com entrada livre.
No final um pequeno pulo até Espanha onde a caravana será recebida pelo Alcalde de La Albergueria de Argañan e presenteada com uns petiscos à moda espanhola.
O jantar está marcado para o Restaurante Robalo (Sabugal) com entrega de prémios (colaboração da Habisabugal) relativa à prova de regularidade e slalom. A noite será livre para passear pelo Sabugal.
No domingo, 30 de Novembro, a caravana sairá do RaiHotel às 10 horas com destino a à aldeia acastelada de Vila do Touro. A comitiva fará uma visita ao miradouro da capela da Senhora do Mercado (séc. XIV) e portal do Castelo de Vila do Touro.
Saída em direcção a Águas Belas e descida pelas belas paisagens da encosta em direcção a Quarta-feira no sopé do imponente Monte de São Cornélio com paragem para um pequeno passeio a pé pela aldeia e visita à queijaria tradicional local.
E é chegada a hora de subir até à Aldeia Histórica de Sortelha onde os participantes serão recebidos para um Porto de Honra com visita ao Castelo Medieval finalizando, assim, a passagem pelos cinco castelos da raia sabugalense.
Os Porsche (e os Ferrari) rumam, de seguida, ao Sabugal fazendo uma passagem de agradecimento e despedida pelas ruas principais da sede do concelho seguindo depois em direcção a ao Viveiro das Trutas de Quadrazais para onde está marcado o almoço de domingo.
Após a refeição será feita uma distribuição de lembranças e o encerramento da II Concentração Internacional Porsche Fans Portugal e o regresso a casa de todos os participantes.
A título de curiosidade podemos acrescentar que a poucos dias do fecho das inscrições os espanhóis do TodoPorsche Clube de Madrid tinha confirmados 14 Porsches e quatro Ferraris e o SoloPorsche de Madrid um Porsche.
Organização
Porsche Fans Portugal
As inscrições podem ser feitas na página oficial do Porsche Fans Clube Portugal:
http://www.porschefansportugal.net/eventos-porsche-fans-portugal-f16/ii-concentracao-i-porsche-fans-29-30-nov-sabugal-t1543.htm
Capeia Arraiana (media partner): http://capeiaarraiana.wordpress.com
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Secção: Notícias, Soito Sabugal
sábado, 15 de novembro de 2008
Uma Lança na América, Luís Aguiar-Conraria, Público, Sexta, 14 de Novembro de 2008


Em Fevereiro, Pacheco Pereira escrevia na revista Sábado que Obama era um “produto da fábrica de plástico”, “politicamente correcto na cor, nem muito preto, nem muito branco”. Admito que, para padrões portugueses e brasileiros, Obama seja considerado mulato. No entanto, para padrões norte-americanos, Obama é negro. Se Obama tem a cor certa, é difícil entender como conseguiram os anteriores 43 presidentes ser eleitos com a cor errada. Na realidade, Barack Hussein Obama não só tinha a cor errada como também tinha o nome errado. Negar isto é desconhecer a realidade. Nos Estados Unidos, a probabilidade de um negro estar preso é oito vezes maior do que a de um branco, a probabilidade de estar desempregado é o dobro e os que estão empregados ganham salários muito mais baixos. Claro que podemos e devemos perguntar se o racismo explica tudo ou se também devemos apontar o dedo à população negra.
Em 2004, Marianne Bertrand e Sendhil Mullainathan levantaram um pouco o véu sobre esta questão, conduzindo uma experiência de campo. Marianne e Sendhil enviaram mais de 5000 currículos vitae falsos como resposta a 1300 anúncios de emprego. A alguns currículos deram nomes tipicamente “brancos”, como Emily e Greg, enquanto os outros ficavam com nomes tipicamente “negros”, como Jamal ou Lakisha. Sem surpresa, concluíram que um candidato negro com exactamente as mesmas qualificações profissionais e académicas que um branco tem muito mais dificuldades em encontrar emprego. Verificaram também que quanto mais qualificada a profissão a concurso maior a discriminação.
Os professores Roland Fryer, Jacob Goeree e Charles Holt levaram a cabo um jogo que ilustra as causas e consequências de tais injustiças. Repartiram os alunos entre empregadores, trabalhadores verdes e trabalhadores roxos. Cada trabalhador começa cada round com um nível de educação zero e tem a opção de comprar, ou não, educação. Os custos dessa compra variam de trabalhador para trabalhador e de forma aleatória. De seguida, cada trabalhador faz rolar dois dados de seis faces. Com base nos dados, é-lhe atribuída uma classificação. Quem tiver adquirido educação tem 25% de hipóteses de ter nota alta, 50% de ter nota intermédia e 25% de ter nota baixa. Para quem não investiu, as probabilidades são de 3, 28 e 69%, respectivamente. Finalmente, o empregador decide se contrata o trabalhador ou não. No entanto, apenas observa duas variáveis: a cor do trabalhador e o resultado do teste. O empregador ganha dinheiro se contratar alguém com educação e perde se contratar alguém sem educação. O procedimento é repetido 20 vezes. A única constante ao longo dos 20 rounds é a cor de cada trabalhador.
Numa dessas experiências, por mero acaso, os custos do investimento em educação foram maiores para os trabalhadores roxos nos três primeiros rounds. Esses custos acrescidos induziram estes trabalhadores a investir menos. A partir do quarto round, os empregadores deixaram de contratar trabalhadores roxos, enquanto os trabalhadores verdes eram quase sempre contratados. De nada servia aos roxos investirem em educação. Eram pura e simplesmente rejeitados. No fim do jogo, os ânimos estavam exaltados. Os roxos queixavam-se de discriminação. Os empregadores acusavam os trabalhadores roxos de serem de pouca confiança e de não investirem em educação. Um dos roxos retorquiu que deixou de gastar dinheiro a adquiri-la, porque raramente era contratado.
Ou seja, num ambiente absolutamente controlado, em que verdes e roxos partiram em igualdade e em que no início de cada round todos voltavam a estar nas mesmas circunstâncias, rapidamente se criou uma sociedade segregacionista com trabalhadores verdes educados e a trabalhar e com trabalhadores roxos, sem instrução, revoltados e desempregados.
Se isto acontece neste ambiente, imagine-se a realidade, com condições desiguais causadas por séculos de História de discriminação racial. É um ciclo vicioso da baixa instrução, baixos salários, elevado desemprego e alta criminalidade. A vitória de Barack Obama é notável e é uma estultícia desvalorizá-la. Felizmente que os americanos perceberam isso e não desperdiçaram a oportunidade de fazer História, dando um passo para uma América pós-racial.
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Secção: Notícias, PROFESSOR AGUIAR-CONRARIA
sábado, 8 de novembro de 2008
APE: Grande Prémio de Literatura Biográfica para o livro "Diário Quase Completo", de João Bigotte Chorão.
O Grande Prémio de Literatura Biográfica da Associação Portuguesa de Escritores (APE) e da Câmara Municipal de Castelo Branco foi atribuído ao livro "Diário Quase Completo", de João Bigotte Chorão, anunciou hoje a APE em comunicado.
A decisão de distinguir esta obra, publicada pela Imprensa Nacional - Casa da Moeda, foi tomada por maioria de um júri presidido por José Correia Tavares (vice-presidente da APE) e constituído pelo professor universitário Artur Anselmo, a vice-reitora da Universidade de Coimbra, Cristina Robalo Cordeiro, e professora e ensaísta Clara Rocha (que votou na obra "Raul Proença - Vols. I e II", de António Reis).
No valor de 5.000 euros e patrocinado pela Câmara de Castelo Branco, o prémio, que se pretende bienal, abrangeu excepcionalmente um período mais alargado, entre 2000 e 2007, e admitiu a concurso 85 obras de escritores portugueses, nas áreas da biografia e autobiografia, memórias e diários.
Nas quatro anteriores edições, o Grande Prémio de Literatura Biográfica da APE foi atribuído a obras de Maria Teresa Saavedra, Eduardo Prado Coelho, Norberto Cunha e Cristóvão de Aguiar.
ANC.
Lusa/fim
João Bigotte Chorão:
Data de Nascimento: 18 de Outubro de 1933
Naturalidade: São Vicente (Guarda), Portugal
Alguns dados biográficos
João Bigotte Chorão, tido como um "especialista" de Camilo (a quem consagrou muitos escritos), na sua crítica e no seu ensaísmo - definidos já como "humanistas" - privilegia valores estéticos, não desligados porém de valores éticos. O seu Diário, pela contenção verbal e tensão interior, tem sido aproximado do de Miguel Torga, de quem, aliás, se confessa devedor.
Artigos, crónicas e ensaios seus estão, muitos deles, dispersos por jornais e revistas.
Colaborou com numerosos artigos em enciclopédias e dicionários de literatura e evocou autores vários em livros in memoriam.
Escreveu prefácios ou posfácios para obras de Leopardi, Garrett, Camilo, Eça, Trindade Coelho, João de Araújo Correia, Fernanda de Castro, Francisco Costa, Tomaz de Figueiredo, Domingos Monteiro, João Mendes, Couto Viana, Fernando de Paços, Júlio Pomar e Camilo de Araújo Correia.
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TANTO MAR
do qual este poema começou a nascer.
Atlântico até onde chega o olhar.
E o resto é lava
e flores.
Não há palavra
com tanto mar
como a palavra Açores.
Manuel Alegre
Pico 27.07.2006





