quarta-feira, 24 de outubro de 2007

UMA VISITA AO MAR, POR CRISTÓVÃO DE AGUIAR. The English version of this text is to be found below.

Fui ver o mar. Acabo de regressar com ele aprisionado no peito. Respirei-o bem fundo e com a competente convicção para o cativar em mim. Trouxe-o também impresso na retina – olhei-me ao espelho, para confirmar ─ vi-o rebentar em inchas de uma alvura de fraldas de noiva... Estava mesmo sozinho, furioso e de sobrecenho soturno. Gosto de o surpreender assim! O porta-contentores a sair do cais não me deixa mentir. À medida que se fazia ao alto mar, a proa a fincar-se naquele chão remexido, abraçavam-se as ondas por cima, numa balbúrdia de espuma. Nessa altura já eu estava no alto da Serra da Boa Viagem, um amplo e fundo horizonte defronte dos olhos. Tinha saudades da sua voz absoluta e do seu insofrimento.
Logo após o almoço, peguei dos meus dois velhos amigos, com quem ultimamente tenho passeado por aí, e partimos em direcção à Figueira da Foz. Seguimos pelo caminho velho, mais pachorrento e humanizado.
Desde que a via rápida tomou posse do cargo, foi-se pouco a pouco transformando numa estrada do lá vai um.
À moda antiga e com aqueles encantos que as auto-estradas não têm mais. Já lá não ia há muito tempo.
(Cristóvão de Aguiar)

7 comentários:

Azer Mantessa disse...

good time by the sea i suppose

have a good day :-)

Rui Caetano disse...

Lindíssimo. Adorei o seu texto. Parabéns.

Ronnie Ferez disse...

thanks for the visit. Great blog you have here. ^_^
cheers!

咖啡豆之家 disse...

i love the cover pictures!
hope u come to my blog again.
see u!!

paula disse...

Este texto fez-me lembrar as viagens que fazia para as férias de verão com os meus avós. E a ver o castelo de Montemor o Velho a fugir, quanto mais nos aproximavamos mais ele fugia...uma delicia:))

xistosa disse...

Nem penso numa invenção.
Nunca li nada de Cristovão de Aguiar, como o que penso digo ou escreve, nem conhecia o nome.
Nem pelos prémios que recebeu e eu que gosto bastante de ler, deixei escapar este nome.

A verdade é que agora surgiram nas bancas tantos escritores portugueses, sem serem os vetustos, que ainda bem, pois há meia dúzia de anos, só os camilianos e afins, bem como os amigalhaços, mesmo que fossem contra.
Já li e reli o que escreveu, quem é, onde nasceu, onde vive e o que faz.

Vou dar uma vista de olhos pelo blogue, porque o que vi, gostei. Por gostar, não por servilismo.

Obrigado pela visita.

Voltarei

Kraichek disse...

pasé a saludar
hi

Cyrano de Bergerac

Cyrano de Bergerac
Eugénio Macedo - 1995

TANTO MAR

A Cristóvão de Aguiar, junto
do qual este poema começou a nascer.

Atlântico até onde chega o olhar.
E o resto é lava
e flores.
Não há palavra
com tanto mar
como a palavra Açores.

Manuel Alegre
Pico 27.07.2006