terça-feira, 16 de outubro de 2007

AS DUAS ROSAS, POR CRISTÓVÃO DE AGUIAR.


AS DUAS ROSAS

Vou dar sepultura a duas rosas. Há muito tinham exalado o último suspiro da sua já tão débil nacarada tonalidade. Até rima com saudade. Não está nada mal. Sinto saudades de Ela por intermédio delas, tocou-as e ajeitou-as no solitário sobre a secretária. Por um incorrigível descuido seu, deixou sobre elas o olhar esquecido. Como podia ter largado um brinco ou um anel num qualquer recanto encantado... Acabo de as aconchegar na urna de papel que as transportará ao seu derradeiro canteiro. Antes de tudo, tive o cuidado de recolher e amealhar o seu olhar que por lá andava tresmalhado como um rebanho de miríades de luzinhas semeado à noite no espinhaço de São Jorge... Assim, sempre fico com outro fôlego e um fogo mais fortificado. Oxalá seja ecológica a sua mortalha, para que suas corolas apodreçam em descanso e suas essências subam aos etéreos alegretes de onde provieram. Mais tarde, voltarão com desejo de reflorir, noutras mesmas hastes, em entes que venham a ser rosas ou margaridas, violetas ou amores-perfeitos, estrelícias ou antúrios... Por exemplo, as orquídeas do nosso reencontro num Dezembro não muito idoso ou as despedidas-de-verão de cada fim de tarde de domingo, que agoniza primeiro nos meus olhos antes de se reclinar no horizonte. E todas as outras corolas, dobradas ou singelas, que Ela me foi soletrando, pétala a pétala, nos jardins que fomos semeando com adubo e afecto no interior dos dias! Mas eu, com este incurável vício de querer eternizar tudo, teimava em prolongar-lhes o viço, aliás como faço com coisas, pessoas, animais e comigo mesmo – devo ser uma mistura de tudo isto, mais o tropeço que represento quando livre e desnudado diante do espelho que me sou... Tão doce devia saber a um certo sentido por inventar o fruto de ser eterno! Mas, pelo menos dentro de mim, e enquanto a vida me não recusar o pão de seu sopro, acredito que o tenha conseguido. Por isso elas permaneceram, como muitas outras corolas que já foram e hão-de um dia vir a ser, e Ela própria, passado, presente e futuro, conjugadas na voz de um único verbo, talvez misto, regular ou irregular, coactivo ou incoactivo, não importa, feito carne e sangue, nervos, versos e sémen. Apenas herdou as vivas virtudes transitivas e algumas intransitivas daqueles outros verbos que, na mortalha da gramática, encontram o seu leito natural de uma morte serena e irremissível. E Ela, coroada de frésias, prevalecerá sobre todas elas!

(Cristóvão de Aguiar)

3 comentários:

Sol disse...

You said that there are thee kinds of women, i disagree. There are infinite kinds of women, men, children, flowers, skies, airs, ect.

Thanks for your visit, i appreciate it; too bad i don't know any portuguese. :(

Have a sweet evening.

Diva disse...

Forte. Amen.
Bjs meus

O Segrel do Penedo disse...

Just three kinds of women... and what about men?
Thanks for visiting our blog.

Unha aperta dende Galiza!!

Cyrano de Bergerac

Cyrano de Bergerac
Eugénio Macedo - 1995

TANTO MAR

A Cristóvão de Aguiar, junto
do qual este poema começou a nascer.

Atlântico até onde chega o olhar.
E o resto é lava
e flores.
Não há palavra
com tanto mar
como a palavra Açores.

Manuel Alegre
Pico 27.07.2006