sábado, 14 de Novembro de 2009

Cristóvão Aguiar versus José Saramago. Sobre "Caim".

Much ado about nothing
ou a Bíblia segundo Saramago















Tomei de empréstimo a Shakespeare o título de uma das suas mais hilariantes comédias. Penso que retrata bem a situação criada à volta da última obra de José Saramago, Caim. O muito barulho continua a furar-nos os tímpanos, e há-de continuar até à náusea, tanto na imprensa escrita como na difundida: artigos, entrevistas, opiniões públicas na rádio e televisão, em que ouvintes e telespectadores opinam sobre o que sabem e não sabem, maneira muito portuguesa de ser mestre em toda a arte, ou burro em qualquer parte, enfim, tudo o que imaginar se possa: até teólogos, politólogos e outros pedagogos de alto coturno… A origem de tal alvoroço na capoeira da paróquia reside nas declarações, estratégicas ou não, do autor do livro, no dia do seu lançamento, em Penafiel. O nada de toda esta lagariça será o romance que, na minha modestíssima opinião, está longe de merecer tamanho alarido.

Segundo o primeiro prémio Nobel português da Literatura, a Bíblia mais não será do que um “manual de maus costumes” e que “é preciso ter muito cuidado quando se lê a Bíblia”… Esta última afirma¬ção fez-me viajar através do tempo, como a personagem Caim do romance do mesmo nome, e ouvir de novo, quietinho para não levar um beliscão da catequista, o padre da minha freguesia, aí por volta de 1949, na altura em que lá chegaram pastores de credos evangélicos, que iam tentar a sorte com o sentido de pescar algumas almas para o seu seio. A leitura da Bíblia constituía o seu principal argumento, uma vez que o catolicismo pouco ou nada ligava ao Livro: quem não lia a Bíblia, sustentavam os pastores, não poderia compreender a palavra de Deus nem a doutrina de Jesus, nem muito menos as inovações e falsidades do Romanismo…

No Domingo seguinte, o padre, na homilia: “A Bíblia é de facto o livro sagrado dos cristãos, mas, caríssimos irmãos em Cristo, não deveis lê-lo, porque, além de difícil, não tendes luzes nem letras para compreender o verdadeiro alcance das palavras lá escritas quase sempre em parábolas; contentai-vos, irmãos, com as explicações das homilias dominicais, e não aceiteis a oferta desse livro, que sei que andam a dá-lo a quem quiser, pois, e caso aceitardes, entrará em vossas casas um livro do diabo…” Saramago não é católico, muito menos sacerdote, mas, as palavras por ele proferidas, numa entrevista ao Jornal de Notícias, de 19 de Outubro, deram-me, por instantes, a sensação de estar ouvindo o pároco da minha freguesia, nos meados do século passado… As palavras pouco se diferençam, e os argumentos são mesmo os mesmos… Não sei se isto abona ou não a favor do escritor que tem procurado, sem êxito, destruir alguns mitos do Velho e do Novo Testamento…

O escritor pode e deve destruir mitos. Mas, para derrubá-los, é mester saber em profundidade o que quer destruir. Lembro James Joyce que, com o seu romance Ulysses, destruiu a cultura clássica porque era um grande conhecedor e especialista nessa matéria. O próprio José Saramago afirma que “Nunca fui um leitor assíduo da Bíblia, mas penso que a conheço bastante bem”… Será que basta? Será assim tão fácil destruir um conjunto de livros de estilos e géneros literários diferentes que serviram de base e inspiração à Literatura e Cultura Ocidental: poesia, teatro, narrativa, música e até ao cinema? Na Faculdade de Letras que frequentei, um dos professores de Literatura avisava logo no início do ano: Quem não leu a Bíblia não pode compreender a Literatura Alemã, Inglesa, Portuguesa, Americana… Portanto, quem ainda o não fez, trate de colmatar essa grave lacuna… Tão ateu como Saramago seria esse professor, o que dá que pensar, sobretudo porque o Nobel Português afirma com a segurança de quem acaba de inventar a roda que a Bíblia devia estar escondida, em casa, fora do alcance das crianças, como se de medicamento perigoso se tratasse…

(II)
Sabendo-se pouco, isto é, sem a profundidade necessária, sobre o que se quer destruir, distorcer ou criticar, pode entrar-se num jacobinismo sem consequência, apenas para chocar o burguês, ou num anticlericalismo primário, como aconteceu durante o século XIX. Nesse tempo, o Deus do Velho Testamento era já considerado cruel, sangrento, bruto, tudo quanto dele diz agora, em segunda mão, o nosso Nobel da Literatura. Nada de novo, portanto! Dou como exemplo o poeta Guerra Junqueiro e o seu livro A Velhice do Padre Eterno. Quem o lê hoje? Quem se incomoda com as suas diatribes? Ouçamos Guerra Junqueiro:

As crianças têm medo à noite, às horas mortas,
Do papão que as espera, hediondo, atrás das portas […].
Não te rias da infância, ó velha humanidade,
Que tu também tens medo do bárbaro papão,
Que ruge pela boca enorme de um trovão,
Que abençoa os punhais sangrentos dos tiranos,
Um papão que não faz a barba há seis mil anos,
E que mora, segundo os bonzos têm escrito,
Lá em cima, detrás da porta do infinito!

Tudo isto é fogo-de-artifício, bem escrito, mas que nada adianta, porque não desce aos infernos da dúvida… É tempo de citar o Eclesiastes:

Não há nada de novo neste mundo. Aparece qualquer coisa e alguém diz: ‘Olha, isto é novo!’ Mas tudo aquilo já existiu noutros tempos, muito antes de nós. Já ninguém se lembra das coisas passadas e o mesmo acontecerá com as do futuro; não se recordarão delas os que vierem mais tarde” […].

É muito difícil ser original. E Saramago não o é. Pelo menos neste seu último romance, Caim, que se situa no Velho Testamento, nem muito menos no Evangelho Segundo Jesus Cristo, que tem como campo de confronto o Novo Testamento.

Escrevi acima que este livro não merecia o alarido que dele está sendo feito. Por duas razões: Primeira, porque o barulho não se deve à leitura do livro; segunda, porque não se trata de uma obra maior do escritor. Foram sopradas as trombetas de Jericó, não cuido nem interessa se intencionalmente, e derrubaram-se os muros da nossa cidade ou paróquia provinciana, que mostrou à saciedade que milhares dos seus habitantes ainda não saíram da idade da pedra no tocante à literatura, mas correram às livrarias para se abastecerem do romance e grande parte deles também da Bíblia. Afinal, Saramago está a ser colaborante ou então o aviso grave que fez sobre a perigosidade da Bíblia deu efeito contrário. Não conseguiu apear o mito!

José Saramago, quanto a mim, atingiu o apogeu em No Ano da Morte de Ricardo Reis, embora os dois primeiros romances, Levantado do Chão e Memorial do Convento, sejam duas obras de grande valor. É humano e natural que um escritor tenha curvas ascendentes e descendentes. Quando se alcança o cume, o que se segue é a descida. O que é preciso é saber sair a tempo, sem dramas, a fim de se não estragar o bom que para trás ficou. Saramago, com Caim, continua em linha descendente. Há por lá muitos lugares-comuns e expressões infelizes, impróprios de um escritor da sua envergadura. Escrever um livro em quatro/ cinco meses, como confessou numa entrevista televisiva, se bem que o assunto lhe estivesse a latejar há muitos anos, não será bem avisado. Aquando da publicação de A Viagem do Elefante, título que poderá ser interpretado tanto no sentido literal como no figurado, sendo que este, no meu entender (a interpretação é livre), significaria o percurso de um grande escritor (o elefante) que, com aquele livro, iria pôr um ponto final na sua carreira literária. Com certeza que alguns dos críticos maldizentes da sua obra anterior o intuíram, porque logo se apressaram ao beija-mão ou ao panegírico fúnebre: “Trata-se de um hino à Língua Portuguesa”, cantaram em coro… A nossa língua deve ser um volumoso hinário de que já ninguém se lembra nem das músicas nem das letras. Excitações… Do romance Caim foi escrito: literatura pura… Quem há-de gabar o noivo senão…?

(III)
Em continuação do santo Evangelho segundo José Saramago, é bom não esquecer que o tema do pecado de Caim, o primeiro assassino da humanidade, a tomar como verídicas as palavras do Génesis, não foi uma novidade trazida pelo nosso Nobel à Literatura. Já antes dele, Byron, Baudelaire, Victor Hugo e Tournier trataram do assunto com outra elevação, adiante-se já a bem da verdade. O que irrita em Saramago, neste seu último romance, é a leviandade e a pobreza de ideias e falta de argúcia interpretativa com que trata os textos bíblicos, não raro lançando mão de uma linguagem escabrosa, que pouco dignifica quem a utiliza.

Exemplifique-se: “O lógico, o natural, o simplesmente humano, seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim…”; ou, na mesma página: “Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso…”; mais adiante, na página 106, escreve o Nobel: “Lúcifer sabia o que fazia quando se rebelou contra deus, há quem diga que o fez por inveja e não é certo, o que ele conhecia era a maligna natureza do sujeito”… Linguinha de prata, como se diz na Ilha! Saramago já veio pedir desculpa por ter chamado filho da puta ao senhor. Mas, como bom teólogo que está provando ser, logo acrescentou: “Ele não é filho da puta, porque não tem pai nem mãe!”

Nada disto me choca no sentido religioso, mas convenhamos que o vazio de ideias e a escrita paupérrima, esses sim, escandalizam quem quer que seja, crente, ateu ou agnóstico, sobretudo quem ama a boa escrita e detesta mentes distorcidas!

(IV)
Saramago analisa o texto bíblico ao pé da letra. Atente-se nesta invectiva do Nobel a um teólogo, numa entrevista televisiva:

“Que autoridade têm os senhores para pôr na Bíblia o que lá não está escrito?” Que me desculpe o escritor, mas parece que a sua interpretação bíblica pede meças à das Testemunhas de Jeová e à dos Adventistas do Sétimo Dia, que esperam Cristo desde 22 de Outubro de 1844, pelas contas feitas, e bem feitas, pelo seu fundador, William Miller, antes pertencente à igreja Baptista e depois fundador do Adventismo por ter interpretado a Bíblia de modo diferente do dos baptistas. Nas suas contas baseou-se nas profecias de Daniel. Está escrito! E o que está escrito é a palavra de Deus… e a ela não se pode mudar um til! Deu no que deu: em 22 de Outubro de 1844, toda a gente, de olho no céu, à espera e Jesus não desceu… Grande foi a desilusão: ficou para a história como o Dia do Grande Desapontamento. Houve debandada quase geral dos fiéis. Sentiram-se defraudados: foram enfileirar-se noutros credos, fundando outros… Mas, e há sempre uma interpretação à letra que nos pode sair ao caminho: Os poucos que restaram fiéis à igreja, agora dirigida por Helen White, a profetisa dos adventistas, escreveu: Cristo realmente principiou a viagem, mas ficou a meio, em quarentena, num lugar entre o céu e a terra, esperando por melhor ocasião para aterrar no nosso planeta…

Não abona muito em favor de um romancista da envergadura de Saramago ser tão estrito na interpretação de um livro polissémico. E tanto assim é que há centenas e centenas de igrejas cristãs, todas elas baseadas no mesmo livro, a Bíblia, cujos textos, pelo visto, podem ser interpretados de milhentas maneiras, ao gosto da imaginação de cada qual. Cada uma religião cristã de per si (e todos os dias nasce uma nova agremiação) são, segundo os seus pastores e teólogos, as únicas verdadeiras, as que melhor interpretam a palavra inspirada de Deus… Vamos agora fazer um exercício com dois romances de José Saramago: Jangada de Pedra e No Ano da Morte de Ricardo Reis. Se os interpretarmos como Saramago o faz em relação à Bíblia, temos que, na Jangada de Pedra, a Península Ibérica se desarreiga do resto da Europa e vai pelos mares afora em forma de jangada… Assim está escrito, assim se deve interpretar, caso contrário ainda podemos ter Saramago de dedo em riste a ameaçar: “Com que autoridade pões nos meus livros o que lá não está?” O mesmo em relação ao outro romance, em que o seu autor traz Ricardo Reis (heterónimo de Pessoa) do Brasil, onde se encontrava homiziado, para Lisboa, via marítima, ressuscita-o, fá-lo viver na capital durante algum tempo, morrendo-o mais tarde e enterrando-o no cemitério do Alto de São João. Quem poderá acreditar nisso, se tomado à letra? Duas ricas metáforas serão, que como tal devem ser interpretadas, mas Saramago não consente… A avaliar pela sua exegese bíblica, tem a razão do seu lado, como sempre… Até quando discursou, em Lisboa, nas comemorações do 25.º aniversário da Revolução de Abril: Se não tivesse havido revolução, o país estava como está!

Só de um Nobel, na altura ainda a cheirar a novo, poderia sair tal pesporrência. Pôs aquele ovo na sessão comemorativa e logo abandonou a sala, para ir dizer missa em outra freguesia, que a ocasião era de discursatas… Ninguém objectou. Temor reverencial!

(V)
Nada há de novo debaixo da rosa do Sol! Nem tão-pouco o tema de Jesus Cristo, que Saramago, no seu Evangelho, apesar de páginas sublimes, não consegue desmistificar o emaranhado que se teceu à volta da figura de Jesus e seus discípulos, sendo por vezes mais fácil acreditar no Novo Testamento do que na versão saramaguiana (coteje-se os dois textos sobre o milagre das Bodas de Caná, o da Bíblia e o do Evangelho), e ficar-se-á elucidado. Essa tarefa desmistificadora coube, porém, entre outros, a Renan, em A Vida de Jesus), a Gèrard Messadié, em Um Homem que se tornou Deus, que o autor transformou em romance (edição esgotadíssima da Difusão Cultural, que esteve ao lado do Evangelho, nas livrarias, et pour cause). Trata-se de um estudo profundo sobre o primeiro século da nossa era, em que o autor é especialista. Lido, como foi o caso, na altura em que saiu, seis meses antes de o Evangelho, de Saramago, fez com que este me tivesse sido uma desilusão, tanto pela celeuma que levantou por causa do então secretário da cultura, que fez o jeito de o proibir de concorrer a um concurso internacional, como pelo consequente exílio dourado de Saramago, em Lanzarote, embezerrado com a pátria e os seus governantes…. Outros dois livros de uma teóloga alemã, Uta Ranke-Heinemann, professora de teologia católica na Universidade de Essen: Eunuchs for the Kingdom of Heaven (Eunucos para o Reino dos Céus) e, sobretudo, Putting Away Childish Things (Deixando de Criancices, tradução livre, minha) ed. HarperSanFrancisco, 1992, que lhe valeu a irradiação da cadeira de Teologia, passando a leccionar História das Religiões. Os assuntos doutrinais-chave de que trata e se desmistifica neste livro são: The divinity of Christ; the Virgin Birth; the empty tomb (o sepulcro vazio), e muitos outros, que a autora considera distorcerem a mensagem do Jesus autêntico e genuíno…

De resto, tem sido o PSD um grande adjuvante na promoção da obra saramaguiana: no século passado, foi o secretário da cultura; neste, o inefável deputado europeu… A juntar às declarações explosivas de Saramago, em Penafiel, que tanta balbúrdia tem causado, fica o ramalhete publicitário bem florido e rematado. Saramago não acredita, mas tem anjos da guarda a zelar pelo êxito comercial de algumas das suas obras mais polémicas… O autor do romance Caim deve ser dos homens mais tementes a Deus em todo o planeta…

(VI)
No JL, de 3 de Novembro, Miguel Real, entre muitas outras coisas, escreve: “Em Caim permanece o estilo tradicional de Saramago (já amiúde analisado), tanto barroquizante (…) (uma floresta de palavras (sublinhado meu) ilustradora de uma ideia) e anarquizante (uma espécie de everything goes), isto é, a confluência de um léxico antigo e vernacular – avonde (pp.16 – com um vocabulário moderno, desenhando um melting pot semântico, aparentemente espontâneo, pelo qual a lógica do texto cria as suas próprias hierarquias gramaticais e ideológicas (…)".

O estilo enxuto, descarnado, nunca foi dom de Saramago. O escritor explica tudo até à exaustão, o que não raro se torna enfadonho. Dir-se-ia que há uma inundação de palavras, grande parte delas inúteis, como se tivesse ocorrido uma séria avaria na canalização provinda da nascente criadora. Por esta e outras razões, muita boa gente letrada costuma(va) afirmar, em surdina (o politicamente correcto vigora com força), que se a certos livros de Saramago fossem retiradas cem ou cento e cinquenta páginas, não perderiam nada: pelo contrário, ficariam mais claros, exactos, sucintos…

Quando assim acontece, alguma coisa está podre no reino da literatura. A arte de dizer muito em poucas palavras é difícil, dura, requer muito esforço, muita lima, muita monda… Escrever é cortar! Veja-se Miguel Torga, um dos mais elevados expoentes de concisão de escrita! Se lhe fosse retirada uma só palavra de uma frase ou de um verso, logo ficariam mancos…

Não posso acreditar numa arte literária em que palavra menos palavra vai tudo dar ao mesmo…

Os lugares-comuns sempre ocuparam uma posição de relevo na obra romanesca de Saramago. Só do romance Caim extraí uma caterva deles: máquinas de encher chouriços; do pé para a mão; dar tempo ao tempo; para aí virado; fazendo das tripas coração; carta branca; mal se podia ter nas pernas; dois coelhos de uma cajadada; a carne é supinamente fraca (genial, o acrescento do advérbio); chorar o leite derramado (expressão traduzida, à letra, do inglês: em português de lei seria: depois de o mal feito, chorar não é proveito; mas, veja-se a frase completa, para aquilatarmos da genialidade de quem a engendrou: “Chorar o leite derramado não é tão inútil quanto se diz, é de alguma maneira instrutivo porque nos mostra a verdadeira dimensão da frivolidade de certos procedimentos humanos, porquanto se o leite se derramou, derramado está e só há que limpá-lo, e se abel foi morto de morte malvada é porque alguém lhe tirou a vida (…)” (Lili Caneças não diria melhor!) …

E por aqui me quedo, que agora me não apetece fustigar mais. Uma nota ainda: durante a leitura do livro, ouvi dezenas de vezes, a matraquear-me no pensamento, o diálogo do Ambrósio com a Senhora, tantos são os algos que o escritor utiliza ao longo do livro: “O que eu queria era algo, Ambrósio, algo de bom, entende, Ambrósio?!” “Entendo, sim, Mylady”…

Analise-se alguma da tão autoproclamada ironia saramaguiana, associada a um humor do mais fino recorte. Examinemo-los, contextualiza¬dos, em alguns passos de Caim:

“Falaste como um livro aberto, disse o querubim, e adão ficou contente por ter falado como um livro aberto, ele que nunca havia feito estudos. (…)”, pp. 30;

“(…) Esta espada de fogo, para alguma coisa servirá finalmente, basta chegar-lhe a ponta em brasa aos cardos secos e à palha e tereis aí uma fogueira capaz de ser vista desde a lua (…) acabaria por pegar fogo ao jardim do éden, e eu ficaria sem emprego (…)”, pp. 31;

“O velho das ovelhas não estava ali, o senhor, se era ele, dava-lhe carta-branca (hífen da minha responsabilidade), mas nem mapa de estradas, nem passaporte, nem recomendações de hotéis e restaurantes (…)”, pp. 78;

“Há que levar em consideração o facto de caim estar mal informado sobre questões cartográficas (…)”, pp. 80;

Acerca do jerico em que caim percorria o mundo através do espaço e do tempo: “Pena não haver ali alguém que soubesse interpretar os movimentos das suas orelhas, essa espécie de telégrafo de bandeiras com que a natureza o dotara, sem pensar o afortunado bicho que chegaria o dia em que quereria expressar o inefável, e o inefável, como sabemos, é precisamente o que está para lá de qualquer possibilidade de expressão (…), pp.81 (uma das mais profundas definições de inefável jamais proferidas);

“O anjo fez cara de contrição, Sinto muito ter chegado atrasado, mas a culpa não foi minha, quando vinha para cá surgiu-me um problema mecânico na asa direita, não sincronizava com a esquerda, o resultado foram contínuas mudanças de rumo que me desorientavam, na verdade vi-me em papos-de-aranha (palpos-de-aranha?) para chegar aqui (…)”, pp. 88… etc., etc.

A conjugação verbal da segunda pessoa do plural é tão vulgar no Norte do País e em Trás-os-Montes, que toda a gente a sabe utilizar de olhos fechados. Ao invés, no romance Caim, as misturadas são frequentes. Do mesmo modo, o descaso votado à diferenciação de tempos verbais não é despicienda. Apenas um exemplo dos muitos que poderiam ser dados “[Eva] ia, como alguém dirá, decentezinha, embora não pudesse evitar que os seios, soltos, sem amparo, se movessem ao ritmo dos passos. Não podia impedi-los, nem em tal pensou (pensara, tinha ou havia pensado), pp. 26.No tocante à conjugação verbal da segunda pessoa do plural, analisemos apenas algumas em que o autor se ensarilha e ninguém dos seus acólitos lhe acudiu: “(…) Depois é convosco, aí já não posso nada, arranjem (arranjai) maneira de se juntarem (vos juntardes) à caravana, peçam (pedi) que os contratem (vos contratem) só pela comida, estou convencido de que quatro braços por um prato de lentilhas será bom negócio para todos, tanto para a parte contratada, quando isso acontecer não se esqueçam (vos esqueçais) de apagar a fogueira, assim saberei que já se foram (vos fostes) (…)”, pp. 31.

Poderia continuar o massacre, mas não vale a pena: a um Nobel todos os pecados lhe são perdoados. Os estudiosos que o dissecam, como as beatas o Missal Romano, lá se encarregam de lhe transformar os erros em virtudes e em novas regras… Que¬rem continuar sentados ao redor da fogueira, soprando em sustenido as trombetas da louvaminhice, rindo às gargalhadas quando o patrono conta ou escreve uma frase humorística, sem piada nenhuma, na esperança de conseguir, pela devoção que lhe dedicam, a sua migalhinha de fama e prestígio, no universo globalizado da literatura! É tempo de proclamar: O rei vai mesmo nu… Nuinho em folha!

Outra das pechas que enxameiam o livro e a Língua Portuguesa: não tenho a menor dúvida, a menor ideia! Menor do que quê? Trata-se de um comparativo de inferioridade. Melhor seria escrever ou dizer não tenho a mais pequena dúvida ou a mínima ideia!

Sobre o tempo dos verbos, no discurso indirecto, há também pouca segurança ou mesmo ignorância: em pano nobelizado também chovem nódoas negras… Que dizer desta frase de Eva, no Éden, em resposta a Deus passeando pela brisa da tarde (título do livro do mesmo nome, de Mário de Carvalho, retirado do Génesis: “A serpente enganou-me e eu comi, Falsa, mentirosa, não há serpentes no paraíso, Senhor, eu não disse que haja serpentes no paraíso (…)”, pp.19.

Haja Deus! Nem um simples discurso indirecto Eva consegue encarreirar… “Não disse que haja. Não disse que havia”, assim é que está certo, D. Eva Saramago del Rio! A mesma sábia que escreveu: “Se Deus existisse, já tinha vindo falar com Voltaire e Saramago”. Ó prosápia das prosápias, tudo é prosápia e vaidade!

Tempo de fechar a tenda desta escrita. Vou já arrumar o livro na estante, junto dos irmãos colaços. Tenho a esperança de que no futuro um dos meus trinetos ou tetranetos o tire da prateleira para o ler e possa, depois, atestar, com a segurança que o tempo costuma reiterar, ou retirar, às grandiosidades fabricadas no presente, nessa altura já pretérito muito perfeito: “Foi este o primeiro Nobel da Literatura de Portugal? De certeza?"

Quanto a mim, não insisto: desisto. Não sei se perdi ou ganhei tempo. Quando o embaixador de Espanha, Porras & Porras, apresentou as credenciais ao Rei D. Carlos para encetar as suas funções diplomáticas no nosso País, El-Rei terá comentado com um dos ministros do reino: “Não é pelo nome, é pela insistência”… Eu também não insisto mais. Nem que me caiam pedaços de céu velho em cima da cabeça. Mais não ponho na carta, já vai mui longa.


sábado, 7 de Novembro de 2009

Coimbra, Estação Velha, Stand/Sucateira Ilegal: Asdrúbal Santos continua a fazer remoção de terras (vide Hoje) na via pública e em terrenos das Estradas de Portugal. A Câmara Municipal de Coimbra, o Ministério Público e as Estradas de Portugal continuam a pactuar com a manutenção destas ilegalidades no coração da Cidade de Coimbra...

Conheça aqui, em pormenor, este caso "insólito"




Stand/sucateira ilegal continua aberta ao público sem qualquer licenciamento?...


Processos de 2004 ????????
Debaixo da mesa????,

Quanto vale srs procuradores?
Ministério Público, onde Vos acoitais que não vindes investigar?...
Cabovisão licenciada dentro da sucateira, em zona de estrada, num estabelecimento sem qualquer licenciamento, que permanece aberto impunemente, sem qualquer intervenção visível da Câmara Municipal de Coimbra que obste à manutenção daquelas graves ilegalidades de valor económico considerável para os prevaricadores e que prejudicam o Direito a Justiça e os Direitos mais elementares dos proprietários dos prédios confinantes, a cidade de Coimbra e a comunidade em geral.

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Muito barulho por nada (III) (IV) Much ado about nothing ou a Bíblia segundo Saramago, por Cristóvão de Aguiar in Destreza das DúvidasOctober 30, 2009 5:23 pm

Em continuação do santo Evangelho segundo José Saramago, é bom não esquecer que o tema do pecado de Caim, o primeiro assassino da humanidade, a tomar como verídicas as palavras do Génesis, não foi uma novidade trazida pelo nosso Nobel à Literatura. Já antes dele, Byron, Baudelaire, Victor Hugo e Tournier trataram do assunto com outra elevação, adiante-se já a bem da verdade. O que irrita em Saramago, neste seu último romance, é a leviandade e a pobreza de ideias e falta de argúcia interpretativa com que trata os textos bíblicos, não raro lançando mão de uma linguagem escabrosa, que pouco dignifica quem a utiliza.
Exemplifique-se: “O lógico, o natural, o simplesmente humano, seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim…”; ou, na mesma página: “Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso…”; mais adiante, na página 106, escreve o Nobel: “Lúcifer sabia o que fazia quando se rebelou contra deus, há quem diga que o fez por inveja e não é certo, o que ele conhecia era a maligna natureza do sujeito”… Linguinha de prata, como se diz na Ilha! Saramago já veio pedir desculpa por ter chamado filho da puta ao senhor. Mas, como bom teólogo que está provando ser, logo acrescentou: “Ele não é filho da puta, porque não tem pai nem mãe!”
Nada disto me choca no sentido religioso, mas convenhamos que o vazio de ideias e a escrita paupérrima, esses sim, escandalizam quem quer que seja, crente, ateu ou agnóstico, sobretudo quem ama a boa escrita e detesta mentes distorcidas!
(continua)
(IV)
Saramago analisa o texto bíblico ao pé da letra. Atente-se nesta invectiva do Nobel a um teólogo, numa entrevista televisiva:

“Que autoridade têm os senhores para pôr na Bíblia o que lá não está escrito?” Que me desculpe o escritor, mas parece que a sua interpretação bíblica pede meças à das Testemunhas de Jeová e à dos Adventistas do Sétimo Dia, que esperam Cristo desde 22 de Outubro de 1844, pelas contas feitas, e bem feitas, pelo seu fundador, William Miller, antes pertencente à igreja Baptista e depois fundador do Adventismo por ter interpretado a Bíblia de modo diferente do dos baptistas. Nas suas contas baseou-se nas profecias de Daniel. Está escrito! E o que está escrito é a palavra de Deus… e a ela não se pode mudar um til! Deu no que deu: em 22 de Outubro de 1844, toda a gente, de olho no céu, à espera e Jesus não desceu… Grande foi a desilusão: ficou para a história como o Dia do Grande Desapontamento. Houve debandada quase geral dos fiéis. Sentiram-se defraudados: foram enfileirar-se noutros credos, fundando outros… Mas, e há sempre uma interpretação à letra que nos pode sair ao caminho: Os poucos que restaram fiéis à igreja, agora dirigida por Helen White, a profetisa dos adventistas, escreveu: Cristo realmente principiou a viagem, mas ficou a meio, em quarentena, num lugar entre o céu e a terra, esperando por melhor ocasião para aterrar no nosso planeta…
Não abona muito em favor de um romancista da envergadura de Saramago ser tão estrito na interpretação de um livro polissémico. E tanto assim é que há centenas e centenas de igrejas cristãs, todas elas baseadas no mesmo livro, a Bíblia, cujos textos, pelo visto, podem ser interpretados de milhentas maneiras, ao gosto da imaginação de cada qual. Cada uma religião cristã de per si (e todos os dias nasce uma nova agremiação) são, segundo os seus pastores e teólogos, as únicas verdadeiras, as que melhor interpretam a palavra inspirada de Deus… Vamos agora fazer um exercício com dois romances de José Saramago: Jangada de Pedra e No Ano da Morte de Ricardo Reis. Se os interpretarmos como Saramago o faz em relação à Bíblia, temos que, na Jangada de Pedra, a Península Ibérica se desarreiga do resto da Europa e vai pelos mares afora em forma de jangada… Assim está escrito, assim se deve interpretar, caso contrário ainda podemos ter Saramago de dedo em riste a ameaçar: “Com que autoridade pões nos meus livros o que lá não está?” O mesmo em relação ao outro romance, em que o seu autor traz Ricardo Reis (heterónimo de Pessoa) do Brasil, onde se encontrava homiziado, para Lisboa, via marítima, ressuscita-o, fá-lo viver na capital durante algum tempo, morrendo-o mais tarde e enterrando-o no cemitério do Alto de São João. Quem poderá acreditar nisso, se tomado à letra? Duas ricas metáforas serão, que como tal devem ser interpretadas, mas Saramago não consente… A avaliar pela sua exegese bíblica, tem a razão do seu lado, como sempre… Até quando discursou, em Lisboa, nas comemorações do 25.º aniversário da Revolução de Abril: Se não tivesse havido revolução, o país estava como está!
Só de um Nobel, na altura ainda a cheirar a novo, poderia sair tal pesporrência. Pôs aquele ovo na sessão comemorativa e logo abandonou a sala, para ir dizer missa em outra freguesia, que a ocasião era de discursatas… Ninguém objectou. Temor reverencial!
(continua)

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Muito barulho por nada (II) Much ado about nothing ou a Bíblia segundo Saramago, por Cristóvão de Aguiar. (cont. II)

Sabendo-se pouco, isto é, sem a profundidade necessária, sobre o que se quer destruir, distorcer ou criticar, pode entrar-se num jaco­binismo sem consequência, apenas para chocar o burguês, ou num anticleri­calismo primário, como aconteceu durante o século XIX. Nesse tempo, o Deus do Velho Testamento era já considerado cruel, sangrento, bruto, tudo quanto dele diz agora, em segunda mão, o nosso Nobel da Literatura. Nada de novo, portanto! Dou como exemplo o poeta Guerra Junqueiro e o seu livro A Velhice do Padre Eterno. Quem o lê hoje? Quem se incomoda com as suas dia­tribes? Ouçamos Guerra Junqueiro:

As crianças têm medo à noite, às horas mortas,
Do papão que as espera, hediondo, atrás das portas […].
Não te rias da infân­cia, ó velha humani­dade,
Que tu também tens medo do bárbaro papão,
Que ruge pela boca enorme de um trovão,
Que aben­çoa os punhais san­grentos dos tiranos,
Um papão que não faz a barba há seis mil anos,
E que mora, segundo os bon­zos têm escrito,
Lá em cima, detrás da porta do infinito!

Tudo isto é fogo-de-artifício, bem escrito, mas que nada adianta, porque não desce aos infernos da dúvida… É tempo de citar o Eclesiastes:

Não há nada de novo neste mundo. Aparece qualquer coisa e alguém diz: ‘Olha, isto é novo!’ Mas tudo aquilo já existiu noutros tempos, muito antes de nós. Já ninguém se lembra das coisas passadas e o mesmo acontecerá com as do futuro; não se recordarão delas os que vierem mais tarde” […].

É muito difícil ser original. E Sara­mago não o é. Pelo menos neste seu último romance, Caim, que se situa no Velho Testamento, nem muito menos no Evangelho Segundo Jesus Cristo, que tem como campo de confronto o Novo Testamento.

Escrevi acima que este livro não merecia o alarido que dele está sendo feito. Por duas razões: Primeira, porque o barulho não se deve à leitura do livro; segunda, porque não se trata de uma obra maior do escritor. Foram sopradas as trombetas de Jericó, não cuido nem interessa se intencionalmente, e derrubaram-se os muros da nossa cidade ou paróquia provinciana, que mostrou à saciedade que milhares dos seus habitantes ainda não saíram da idade da pedra no tocante à literatura, mas correram às livra­rias para se abastecerem do romance e grande parte deles tam­bém da Bíblia. Afinal, Sara­mago está a ser colaborante ou então o aviso grave que fez sobre a perigosidade da Bíblia deu efeito contrário. Não conseguiu apear o mito!

José Saramago, quanto a mim, atingiu o apogeu em No Ano da Morte de Ricardo Reis, embora os dois primeiros romances, Levantado do Chão e Memorial do Convento, sejam duas obras de grande valor. É humano e natural que um escritor tenha cur­vas ascendentes e descendentes. Quando se alcança o cume, o que se segue é a descida. O que é preciso é saber sair a tempo, sem dramas, a fim de se não estragar o bom que para trás ficou. Saramago, com Caim, continua em linha descendente. Há por lá muitos lugares-comuns e expressões infelizes, impróprios de um escritor da sua envergadura. Escrever um livro em quatro/ cinco meses, como con­fessou numa entrevista televisiva, se bem que o assunto lhe esti­vesse a latejar há muitos anos, não será bem avisado. Aquando da publicação de A Viagem do Ele­fante, título que pode ser interpre­tado tanto no sentido literal como no figurativo, sendo que este, no meu entender (a inter­pretação é livre), pode ser interpretado como o percurso de um grande escritor (o elefante) que, com esse livro, iria terminar o carreira literária. Com certeza que alguns dos críti­cos maldi­zentes da sua obra anterior o intuíram, porque logo se apressa­ram ao beija-mão ou ao panegírico fúnebre: “Trata-se de um hino à Língua Portuguesa”, cantaram em coro… A nossa língua deve ser um volumoso hinário de que já nin­guém se lembra nem das músicas nem das letras. Excitações… Do romance Caim foi escrito: litera­tura pura… Quem há-de gabar o noivo senão…?

(continua)

Furtado do destreza das dúvidas

Muito barulho por nada. Much ado about nothing ou a Bíblia segundo Saramago, por Cristóvão de Aguiar. (cont. I)



terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Monumento a Nossa Senhora da Boa Viagem, de Eugénio Macedo, edificado em Parada - Almeida. Escultura em granito. 2007

Clique aqui para ver mais


"Quem entra na Parada pela estrada principal, de certo não fica indiferente à imponência da imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem, que sulcada na pedra, abençoa os visitantes desta humilde terra."
In blogue Parada do Côa

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Junta de Freguesia de Vila Boa - Sabugal: Monumento ao Agricultor e Brasão de Vila Boa, por Eugénio Macedo. 2009












Parabéns aos promotores do monumento:
Alexandre Pereira Morgado
António Joaquim Dinis
Jorge Miguel Proença Tracana

Assim é que se apoia a cultura e os artistas!

domingo, 25 de Outubro de 2009

Poema escrito pelo padre G. P. a mestre Eugénio Macedo.




O BOMBEIRO
                                                 
Eugénio Macedo
olhou o penedo
e viu, dentro dele,
aquele segredo
que mais ninguém vê,
se olha à flor da pele
da arte se descrê.

Sempre a obra medra
na ideia sonhada…
Lá dentro da pedra,
estava um bombeiro
que subia a escada,
garboso e ligeiro.
Ninguém via nada.



Com escopro e cinzel,
Eugénio Macedo,
desbasta, a granel,
o grande penedo.
Esboça-lhe um corpo,
talha o capacete:
com cinzel e escopro,
põe-lho no topete.


As mãos nos varais,
os pés nos degraus,
atento aos sinais,
que parecem maus
uma missão cumprida
que é “vida por vida”!


Arte é sempre gala!
Com buril ou broxa,
nunca a obra é fátua…
No cepo ou na rocha,
há sempre uma estátua
preciso é tirá-la.


Padre G. P.

sábado, 17 de Outubro de 2009

Vila Boa - Sabugal. O moumento ao Agricultor de mestre Eugénio Macedo, em fase de acabamento. Outubro de 2009.

Clique aqui para ver execução integral da obra




Por cada obra que mestre Eugénio Macedo procria, cria ou esculpe, mais perceptível se torna a sua crescente preocupação de rigor, apuro e asseio na arte escultórica, doseando um classicismo, sabiamente assumido, com a modernidade merecedora de que lhe chamemos assim. Este monumento ao Agricultor, a edificar em Vila Boa – Sabugal, é disso exemplo paradigmático.
Repare-se na delicadeza de formas, na leveza, na harmonia e beleza de que é capaz o cinzel deste Mestre.
É mais uma obra que muito valoriza a estatuária sabugalense.
Intencionalmente não a descrevo e mesmo a sua publicação é um incentivo para que os leitores a vão visitar ao vivo, no local onde se encontra. (Vila Boa – Sabugal.)
Depois, aproveitem para respirar o bom ar e degustem as iguarias gastronómicas nos variados restaurantes da região.


domingo, 11 de Outubro de 2009

Soito-Sabugal. Outra pintura do mestre Fernando Monteiro Fernandes. ( F. M. F. ) e uma escultura em ferro e madeira.



sábado, 10 de Outubro de 2009

ILEGALIDADES SUBSISTEM NA ESTRADA DE EIRAS, EM COIMBRA - ESTAÇÃO VELHA.


Uma incursão na pintura do mestre do ferro, Fernando Monteiro Fernandes, ( F. M. F. ). Soito - Sabugal.











Óleo e acrílico sobre tela, por F. M. F..

quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

Charlas Sobre a Língua Portuguesa, de Cristóvão de Aguiar, esmiuçado por Maninha

Aqui.

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

Coimbra: Ruído nocturno preocupa Provedoria do Ambiente, in Diário de Coimbra de 7-10-2009.

Escrito por Ana Margalho
Diário de coimbra

«A situação está a ultrapassar os limites». Massano Cardoso está «muito, muito preocupado» com a «frequência inusitada de queixas» que têm surgido nos últimos dias relativamente ao ruído que se tem sentido durante a noite em alguns pontos da cidade, prometendo «fazer um levantamento de todas as situações e pedir informações às autoridades, administrativas e policiais relativamente a esta temática».
Recorde-se que especialmente este fim-de-semana foram várias as reclamações feitas junto da Polícia de Segurança Pública (PSP), ontem confirmadas ao Diário de Coimbra por fonte policial, do ruído «insuportável» na madrugada de sábado na zona dos Alqueves provocado pelas obras na Variante Sul do IC-2 e ainda, na madrugada e manhã de segunda-feira, do «barulho infernal» vindo da Praça da Canção, onde se realizou o Coimbra Dance Event.
O provedor do Ambiente e Qualidade de Vida Urbana de Coimbra confessa que, apesar de existirem, não têm aumentado as reclamações junto da provedoria relativamente a casos de ruído nocturno, no entanto, as notícias e os textos de opinião publicados nestes últimos dias no Diário de Coimbra com reclamações de cidadãos de Coimbra sobre o ruído, especialmente nocturno, na cidade, chegaram para que Massano Cardoso considere «fundamental que se ponha ordem na casa» no que diz respeito às competências e às responsabilidades nesta matéria e se respeitem os direitos dos cidadãos.
«Isto já não é de agora. Há uma grande confusão sob o ponto de vista jurídico relativamente às responsabilidades no que respeita ao ruído e os cidadãos estão baralhados», confirmou, garantindo que a Provedoria irá fazer «tudo o que está ao seu alcance para que as pessoas sejam esclarecidas e, mais do que isso, para que não se viole o direito que todos têm de descansar, sem serem incomodados com o ruído de outros».
Questionado se não será exagero o epíteto de “Coimbra, Capital do Ruído”, aplicado nos últimos dias, Massano Cardoso adiantou que, «apesar de se estar a generalizar, no fundo, é uma crítica perfeitamente legítima para quem se sente lesado». «É algo muito desagradável», admitiu o provedor, deixando claro que, apesar de tudo, o ruído se sente em «sítios perfeitamente localizados».

Diário de Coimbra de 7-10-2009

quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

2009. Notícia em 1.ª mão: Munumento ao Emigrante, de Meimão, esculpido por Eugénio Macedo.



















Mais um excelente monumento esculpido pelo imparável e inigualável mestre Eugénio Macedo. Meimão, Setembro de 2009.

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

“O Novíssimo Testamento”, de Mário Lúcio de Sousa, vence Prémio Literário Carlos de Oliveira 2009.

“O Novíssimo Testamento”, do escritor cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa, foi o título vencedor da segunda edição do Prémio Literário Carlos de Oliveira, concurso promovido pela Câmara Municipal de Cantanhede e pela Fundação Carlos de Oliveira. O objectivo é estimular a criação literária e, simultaneamente, homenagear um dos grandes vultos da literatura portuguesa do século XX.


Na acta da decisão, o júri refere que “a obra se distingue de todas as outras apresentadas a concurso”, fazendo notar “a grande originalidade da abordagem que faz ao religioso (…), o que evidencia um vasto conhecimento sobre o tema”, sublinhando ainda “a notável capacidade de escrita que se encontra bem patente na riqueza e vastidão do léxico utilizado”.
Na fundamentação utilizada é ainda apontada “uma efabulação poderosa, rica em imaginação e temperada por acentos de humor, que recorre muitas vezes à ironia e ao picaresco”. Segundo o júri, Mário Lúcio Sousa retoma em O Novíssimo Testamento as Escrituras Sagradas, “reinventa-as por meio do recurso a um contrafactual herdado da teologia medieval, colocando a hipótese de Jesus ter sido mulher e explorando as vastas implicações e consequências dessa hipótese”.
Nos termos do regulamento, integraram o júri Pedro António Vaz Cardoso, Vereador do Pelouro da Cultura, em representação do Presidente da Câmara Municipal de Cantanhede, António Apolinário Lourenço, indicado pelo Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Osvaldo Silvestre, designado por Ângela de Oliveira (viúva de Carlos de Oliveira), Arsénio Mota, personalidade do meio literário convidado e vencedor da primeira edição do prémio, bem como Cristóvão de Aguiar, representante da Associação Portuguesa de Escritores.
O valor do Prémio Literário Carlos de Oliveira é de 5.000 euros, verba totalmente suportada pelo Município de Cantanhede, ficando também assegurada a publicação da obra pela autarquia.
Das 67 obras concorrentes, foram distinguidas com menções honrosas Rendição e Trevas, de Nuno de Figueiredo, autor de Coimbra que utilizou o pseudónimo de Urbano Soares, e Ao Compasso da Noite, de Ricardo Augusto Sanguinho de Jesus, autor de Lisboa que concorreu sob pseudónimo de Chico Marraquexe.
Conforme consta do regulamento, as inscrições para a segunda edição do concurso decorreram até 15 de Abril, estando aberta à participação de autores dos Países de Língua Oficial Portuguesa, que podiam concorrer apenas com uma obra, inédita e não editada, em prosa narrativa (conto ou romance) e assinada obrigatoriamente sob pseudónimo.
Recorde-se que na primeira edição do concurso, a obra vencedora foi Quase Tudo Nada, do escritor Arsénio Mota, jornalista, cronista, poeta, ensaísta, tradutor e editor de livros com vasta colaboração dispersa por jornais e revistas. Foram ainda distinguidos com menções honrosas Parede de Adobo, de João Carlos Costa da Cruz, residente em Febres, e Visões do Azul, de Emília Ferreira, com morada na Caparica.
RB

Tags: Cantanhede, Prémio Literário

segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

Quintela, Nemésio e Torga, in blog De Rerum Natura.

Quintela, Nemésio e Torga

Já não é recente o livro Com Paulo Quintela à Mesa da Tertúlia. Tive dele uma primeira edição que comprei em finais dos anos oitenta e que depois dum empréstimo não voltou às minhas mãos. Lembro-me disso, porque me ficou a fazer falta: a escrita de Cristóvão de Aguiar dava-me a conhecer melhor um mítico professor de Filologia Germânica da Universidade de Coimbra, que penso nunca ter visto mas de que muito me falavam na Faculdade de Letras – Paulo Quintela.

Comprada a segunda edição, reli-a de ponta a ponta, detendo-me em algumas passagens que me tinha ficado na memória durante mais de vinte anos. Partilho com os leitores uma dessas passagens em que se refere a longa e estreita amizade entre três grandes nomes das Literatura: Vitorino Nemésio, Paulo Quintela e Miguel Torga.

“Nemésio estudava pouco. Não teria muito tempo! Antes das frequências chegava-se a Quintela para se informar da matéria que vinha para o exame. Ouvia o que dizia o colega, ia tomando notas num cartão-de-visita, e por fim entrava na sala. Perante o papel da prova, escrevia o que sabia e inventava o que não sabia. Numa frequência de História Medieval, da regência do Doutor Gonçalves Cerejeira, Nemésio, como de costume, chegou-se à beira do amigo e perguntou-lhe as linhas gerais da matéria. Durante a prova desunhou-se a escrever. Dias mais tarde, o professor apreciava e comentava e comentava na aula, as provas escritas uma por uma, tão poucos seriam os alunos. Ao chegar ao exercício de Nemésio, «Quanto ao exercício de frequência do senhor Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva, tenho a dizer que mais me parece uma página de Anatole France…», tal era a sua capacidade de escrita.

Lá escrever bem, venha aí quem o negue, e como facilidade, o que já poderá ser um estorvo, mas segundo Paulo Quintela, Nemésio escrevia com a mesma naturalidade com que mijava. Anos mais tarde, leitor de Português em Bruxelas, Nemésio havia de surpreender Miguel Torga pela facilidade de escrita. O passo que a seguir se transcreve do tomo III de Criação do Mundo ilustra bem essa agilidade: «Ao cabo de algumas horas de comboio, fui encontrá-lo confortavelmente instalado num quarto burguês, a matraquear à máquina um ensaio sobre Valéry. Depois das primeiras efusões, com medo de o interromper, fiquei calado. – Vai dizendo, que isto tem de seguir hoje… – Acaba lá primeiro. – Ainda demora. Conta, conta… – Pasmado, assisti então ao fenómeno de o ver a conversar e escrever ao mesmo tempo»”

Imagem: Reprodução do quadro de Bárbara Borges. Nele se pode ver Cristóvão de Aguiar e Paulo Quintela com o seu cachimbo. Aguiar foi seu aluno e amigo e durante muitos anos encontravam-se com regularidade para conversar em tom de tertúlia.

Referência completa: Aguiar, Cristóvão. (2005). Com Paulo Quintela à Mesa da Tertúlia. No centenário do seu nascimento. Coimbra: Imprensa da Universidade, página 32.

domingo, 27 de Setembro de 2009

Aguiar-Conraria e Pedro Magalhães acertaram no resultado destas eleições legislativas há mais de um ano e foi primeira página do semanário Sol, de 15 de Agosto de 2008.

CLIQUE NAS IMAGENS PARA AS AMPLIAR Publição Ipsisverbis

sábado, 26 de Setembro de 2009


quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

A Câmara Municipal de Coimbra, defenitivavente, não cumpre a Lei. Mantém estabelecimento não licenciado, aberto ao público e com processos de contra-ordenação de 2004. Pasme-se 2004 e não 2006 tal como foi noticiado neste blogue. O MINISTÉRIO PÚBLICO CONSIDERA ISTO NORMAL.

Fotografia tirada hoje 24-09-2009.

quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

DESINFESTAÇÃO. NAS LEGISLATIVAS NÃO VOTEM CENTRÃO!


segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

Eugénio Macedo regressa ao Concelho do Sabugal com um monumento ao agricultor, que vai ser edificado em Vila Boa. 2009

Estudo do monumento

sábado, 19 de Setembro de 2009

O Doutor Figueiredo Dias venceu o Prémio Eduardo Lourenço 2009. € 10.000,00.

18.09.2009 - 19h43 Lusa

O professor catedrático de Direito Penal da Universidade de Coimbra, Jorge de Figueiredo Dias, já jubilado, é o vencedor da quinta edição do Prémio Eduardo Lourenço, no valor de 10 mil euros, atribuído pelo Centro de Estudos Ibéricos (CEI).
A decisão foi hoje anunciada, na Guarda, por Fernando Seabra Santos, reitor da Universidade de Coimbra, no final de uma reunião do júri realizada nas instalações do CEI.
O prémio, que tem o nome do ensaísta Eduardo Lourenço, mentor e presidente honorário do CEI, pretende galardoar personalidades ou instituições, de língua portuguesa ou espanhola, "que tenham demonstrado intervenção relevante e inovadora na cooperação transfronteiriça e na promoção da identidade e da cultura das comunidades ibéricas".

Fernando Seabra Santos, reitor da Universidade de Coimbra, que presidiu ao júri da edição deste ano,
anunciou que a distinção foi entregue ao professor catedrático jubilado Jorge de Figueiredo Dias, "uma figura muito importante da ciência jurídica portuguesa e espanhola, neto de espanhóis, e uma personalidade importantíssima da ciência jurídica e, em particular, do Direito Penal".
Referiu que o galardão "está bem entregue" ao catedrático que nasceu a 30 de Setembro de 1937, na Freguesia Oriental da cidade de Viseu, que frequentou a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra entre 1954 1959, onde se licenciou com a classificação de 17 valores e foi professor catedrático de Direito Penal até à jubilação em finais de 2007.
Figueiredo Dias ensinou Direito Penal, Processo Penal e Ciência Criminal da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e, entre outras funções, integrou o Conselho Científico da Faculdade de Direito de Macau e foi membro do Conselho Científico da Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa.
Também foi presidente esda Comissão de Revisão do Código Penal e do Código de Processo Penal, membro do Conselho de Estado (1982/1986) e deputado à Assembleia da Republica de 1976 a 1978. Em 1984 foi condecorado pelo presidente da República Ramalho Eanes com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo, a mais alta distinção honorífica portuguesa.
"É uma personalidade importantíssima da ciência jurídica portuguesa, tem trabalhado muitíssimo com colegas espanhóis, tem colaborado e contribuído para o estreitamento de relações universitárias, académicas e científicas, na área do Direito Penal, entre Portugal e Espanha", destacou o presidente do júri.
Segundo Fernando Seabra Santos, a escolha de Figueiredo Dias "responde bem aos critérios do Prémio [Eduardo Lourenço] e é uma personalidade ímpar da nossa ciência jurídica".
A sessão solene de entrega do prémio hoje anunciado terá lugar a 27 de Novembro, na Guarda, no dia do Feriado Municipal.
As quatro anteriores edições do prémio Eduardo Lourenço contemplaram Maria Helena da Rocha Pereira, catedrática jubilada da Universidade de Coimbra na área da Cultura Greco-Latina, o jornalista espanhol Agustín Remesal, antigo correspondente da TVE em Lisboa, a pianista Maria João Pires e o poeta espanhol Ángel Campos Pámpano.

quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

8.º Colóquio Anual da Lusofonia. Bragança, de 30 de Setembro a 3 de Outubro. O convidado especial de 2009 é o Escritor Cristóvão de Aguiar.

®™ colóquios da lusofonia 2009 - 10:51colóquios da lusofonia. convidado especial o escritor açoriano CRISTÓVÃO DE AGUIAR para homenagear Miguel Torga e Paulo



PRESS RELEASE 8º Colóquio Anual da Lusofonia
Patronos: Professor João Malaca Casteleiro Academia de Ciências de Lisboa /Professor Evanildo Cavalcante Bechara da Academia Brasileira de Letras.
8º Colóquio Anual da Lusofonia
Em Bragança juntam-se as 3 Academias de Língua Portuguesa para a Homenagem contra o Esquecimento sob o signo do novo acordo ortográfico.
Presentes no Anfiteatro Dr Paulo Quintela em Bragança (Portugal) de 3º de setembro a 3 de outubro 2009 no 8º Colóquio Anual da Lusofonia (12º no total) os Professores Doutores Adriano Moreira (Vice-Presidente da Academia, Presidente da Classe de Letras, Presidente do Instituto de Altos Estudos da Academia das Ciências de Lisboa), que se junta aos Patronos dos Colóquios desde 2007 João Malaca Casteleiro (Classe de Letras, 2ª Secção – Filologia e Linguística, da Academia de Ciências de Lisboa), e Evanildo Bechara (Academia Brasileira de Letras) e onde estarão também o convidado de 2009, escritor Dr. Cristóvão de Aguiar, o Dr. Ângelo Cristóvão (da Academia Galega da Língua Portuguesa)
Igualmente de salientar a sessão especial sobre literatura (de matriz açoriana) e tradução com a participação de Cristóvão Aguiar, Rosário Girão, Zélia Borges, Ilyana Chalakova e Chrys Chrystello. Este 12º colóquio (8º Anual) conta com 47 oradores e dezenas de presenciais representando os seguintes países, regiões e universidades: Portugal 19, Brasil 12, Galiza 6, Açores 4, Bélgica 1, Macau R P China 1, Espanha 1, Bulgária 1, Nigéria 1, Ucrânia 1, Roménia 1
Assistiremos ainda ao lançamento de livros, integrados numa mostra de obras açorianas, havendo música AÇORIANA, música GALEGA, duas representações teatrais de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Catarina, Brasil e sessões de poesia (galega, portuguesa e brasileira). Debater-se-ão ainda propostas e projetos dos
Colóquios: Planos de Ação/Conclusões. Propostas/ Projetos 2010, Museu Virtual da Lusofonia/Língua, Acordo Ortográfico, Diciopédia, Crioulos de Origem Portuguesa, Estudos Açorianos, Estudos Transmontanos, o 13º Colóquio de 2010 em santa Catarina no Brasil, etc.
TEMAS em debate:
1. HOMENAGEM CONTRA O ESQUECIMENTO: autores sugeridos :
1.1. Carolina Micha?lis (ver bio aqui),
1.2. Leite de Vasconcellos (ver bio aqui),
1.3. Euclides da Cunha (ver bio aqui),
1.4. Agostinho da Silva (ver bio aqui),
1.5. Rosalía de Castro (ver bio aqui),
1.6. Gulamo Khan (Moçambique 1952-1986 ver bio aqui)
1.7. Outros autores esquecidos
2. LUSOFONIAS:
2.1. Debate sobre questões e raízes da Lusofonia.
2.2. A vigência do 2º Protocolo Modificativo do Acordo Ortográfico de 1990
2.3. Promoção da Língua Portuguesa (2ª língua/língua estrangeira)
2.4. Ponto da Situação da Língua Portuguesa no Mundo.
2.5. Léxicos da Lusofonia.
2.6. Lusofonias e Insularidades
2.7. Criação de uma base de dados sobre Estudos de Crioulos da Língua Portuguesa
3. TRADUÇÃO:
3.1. Tradução de autores portugueses
3.2. Tradutores de Português e Tradutores para Português
3.3 Tradução e novas tecnologias
4. Propostas de dinamização dos PROJETOS dos Colóquios da Lusofonia
4.1. Diciopédia
4.2. Crioulos de origem portuguesa, criação de uma base de dados
4.3. Museu da língua/museu virtual da lusofonia
4.4. Estudos açorianos na Unisul (universidade do sul de santa catarina)
4.5 Estudos transmontanos
COLÓQUIOS DA LUSOFONIA
Colóquios da Lusofonia/Encontros Açorianos da Lusofonia,
O Presidente da Comissão Executiva,
Dr J. CHRYS CHRYSTELLO,
A NOSSA DIVISA É
NÃO PROMETEMOS, FAZEMOS
Telefone: (351) 296 446940, Telemóvel: (+ 351) 91 9287816 / 91 6755675
E-fax (E-mail fax): + (00) 1 630 563 1902
E-mail: coloquioslusofo...@gmail.com , coloquiolusofo...@gmail.com ;
lusofoniazo...@gmail.com ,
lusofo...@sapo.pt, lusofoniazo...@sapo.pt
8º Colóquio Anual da Lusofonia 2009
http://www.lusofonias.net/lusofonia%202009/index.htm
5º Encontro Açoriano 2010 (Sta Catarina Brasil)
http://www.lusofonias.net/encontros%202010/index.htm
* Todos os colóquios: http://www.lusofonias.net
* Diciopédia Contrastiva dos Colóquios:
http://www.lusofonias.net/diciopedia/index.html
* Tudo sobre o Acordo Ortográfico http://www.lusofonias.net/paginaprincipal.htm
PATRONOS: MALACA CASTELEIRO E EVANILDO BECHARA E
* APOIOS
Câmara Municipal de Bragança /Câmara Municipal da Lagoa (Açores)
* Protocolos e Parcerias:
GOVERNO ESTADUAL DE SANTA CATARINA
ACADEMIA GALEGA DA LÍNGUA PORTUGUESA
UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA, BRASIL (UNISUL)
UNIVERSIDADE MACKENZIE DE SÃO PAULO, BRASIL
ESE, INSTITUTO POLITÉCNICO DE SETÚBAL
ESE, INSTITUTO POLITÉCNICO DE BRAGANÇA
ACADEMIA DE LETRAS DE BRASÍLIA,

domingo, 30 de Agosto de 2009

Meimão - 2009. Estudo do Monumento ao (I)Emigrante. Escultura em granito por Eugénio Macedo

Clique no título para ver a execução da obra.

Eugénio Macedo esculpe dois monumentos em simultâneo: o E(i)migrante em Meimão e Agostinho da Silva em Barca D´Alva.

quarta-feira, 26 de Agosto de 2009

Santo Amaro - 1996, edificado na aldeia de Nave Redonda / Figueira de Castelo Rodrigo, escultura em granito de Eugénio Macedo.

Clique no título para ver hiperligação da Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo.

terça-feira, 25 de Agosto de 2009

Eugénio Macedo conquista com muito mérito a capa do jornal Nova Guarda, de 19 de Agosto de 2009.






















Eugénio Macedo, esculpindo ao vivo, em plena Feira das Actividades Económicas de Figueira de Castelo Rodrigo, Agosto de 2009.


Ensaísta recordado em Barca D’AlvaUma escultura para homenagear Agostinho da Silva

Quem visitou a 12ª Feira das Actividades Económicas de Figueira de Castelo Rodrigo pode ver Eugénio Macedo a executar ao vivo a escultura de Agostinho da Silva, que irá ser colocada em Barca D’Alva, aldeia onde o filósofo, poeta e ensaísta português viveu alguns anos. O projecto é do Município de Figueira, que vai homenagear Agostinho da Silva com a instalação da escultura naquela localidade, onde, de resto, foi já descerrada uma placa comemorativa do centenário do seu nascimento, em 2006.

De um grande bloco de granito está a nascer uma escultura em homenagem a Agostinho da Silva, um grande pensador que viveu alguns anos em Barca D’Alva, no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo. A peça está a ser trabalhada por Eugénio Macedo, um artista multifacetado com trabalho reconhecido.

Trata-se de um projecto da Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo, que pretende prestar uma homenagem ao filósofo, colocando uma escultura de Agostinho da Silva em Barca D'Alva, onde, de resto, também já existe uma placa comemorativa do seu centenário, descerrada durante as comemorações dos 250 anos da Região Demarcada do Douro.
A escultura deve ficar pronta em breve, estando a sua inauguração prevista para antes das eleições Autárquicas de 11 de Outubro.

Segundo o artista, a escultura “tem tamanho real” e é esculpida em granito de Figueira. Para a criar, Eugénio Macedo não se serviu de qualquer maqueta ou molde. Este escultor de grandes dimensões e desafios faz a escultura de imediato no granito, acreditando num resultado “muito positivo”.

Neste momento, Eugénio Macedo está a executar, em simultâneo, uma outra escultura para Meimão, que deverá entregar no início de Setembro. Nesta localidade do concelho de Penamacor, a Junta de Freguesia pretende homenagear os emigrantes com uma escultura de três metros de altura, que tem estado a ser moldada por Eugénio Macedo.

Infância em Barca D’Alva

Nascido no Porto a 13 de Fevereiro de 1906, George Agostinho Baptista da Silva viveu os primeiros anos da sua vida em Barca D’Alva, concelho de Figueira de Castelo Rodrigo. Estudou no Porto, onde se formou em Filologia Clássica, e, depois de passar pela Escola Normal Superior de Lisboa, foi para Paris, como bolseiro. Com 27 anos, regressou a Portugal para dar aulas no Liceu de Aveiro, onde esteve apenas dois anos, acabando por ser demitido por questões políticas. Esteve preso no Aljube (Lisboa) devido a polémicas com o Estado Novo e a Igreja Católica, optando por se exilar no Brasil, onde co-fundou as universidades federais de Paraíba, Santa Catarina e Brasília.

Agostinho da Silva morreu a 3 de Abril de 1994, em Lisboa, deixando uma vasta obra, que inclui textos pedagógicos, ensaios filosóficos, novelas, artigos, poemas, estudos sobre História e cultura e as suas reflexões sobre a religião. O seu pensamento combina elementos de panteísmo, milenarismo e ética da renúncia, afirmando a liberdade como a mais importante qualidade do ser humano. Pode ser considerado um filósofo prático e empenhado, através da sua vida e obra, na mudança da sociedade.

Por: Fátima Monteiro

Vilar-Maior / Sabugal - 1998. Painel granítico monumental, esculpido por Eugénio Macedo.


Tasca D´El Rei,1997- 2009, Alfaiates-Sabugal, por Eugénio Macedo.










Fotografias tiradas em Agosto de 2009. Clicar nas imagens para as ampliar.







sábado, 8 de Agosto de 2009

Apresentação em Bucareste e na Maia de "Cães Letrados", de Cristóvão de Aguiar. (Calendário, 2008)


Rumo a uma tipologia canídea…

Revisitemos as palavras de Eloísa Alvarez (porta-voz do Júri do “Prémio Literário de Miguel Torga”), transcritas no “Prólogo” de A Tabuada do Tempo; a lenta narrativa dos dias: “A aparente insignificância de cada ins­tante do dia ou da noite é transcendida por Cristóvão de Aguiar com a paixão de quem vive esses momentos como se fossem os últimos, os decisivos da sua vida: ungindo-os - como se de um feito religioso de tratasse - com o amor, numa sacralização invasora que inclui quer o erotismo referido a Ela, quer o humanismo com que contempla o Outro, um Outro que, além de incluir o Homem, contempla também os bichos […].” (Coimbra, Livraria Alme­dina, 2007: 11).

E é, com efeito, de bichos que se trata, não de Bichos, de Miguel Torga (ao qual o professor, o escritor, o novelista e o linguista não raro rende preito), mas tão-só de cães, esses “inseparáveis e afectuosos companheiros” da infân­cia e juventude do Autor (2008: 10). Se nos detivermos, aliás, no título desta belíssima antologia - Cães Letrados -, revelando à saciedade a feliz osmose entre canidade e humanidade, se atentarmos nas três epígrafes de Jean Genet, de Simone de Beauvoir e de Victor Hugo, remetendo para uma concepção mítica da infância como “idade de ouro”, e se nos quedarmos na dedicatória “Para os meus netos”, não se tornará difícil privilegiar um duplo protocolo de leitura, visando dois ‘tipos’ de público-alvo: o leitor jovem (infantil e adoles­cente) e o leitor adulto; o leitor ingénuo, afeiçoado às histórias comovedoras de cães, e o leitor crítico, cuja experiência (que, segundo Oscar Wilde, é o nome que damos aos nossos erros...) não hesita em escavar na superfície do texto um ou outro trilho hermenêutico, mais ou menos consciente e profundo, voluntariamente traçado ou não... Configurando, de modo indubitável, o sen­tido imanente e a estrutura profunda – o fenotexto e o genotexto – , os títulos das dezoito novelas (não ao acaso respigados) tanto reenviam para os nomes dos caninos cuja trajectória existencial não deixa de ser narrada, como para uma reinvenção taxinómica dos Canídeos, a que não é alheia a sátira social.

No primeiro caso, o dos títulos epónimos, deparamos com genuínos bilhe­tes de identidade - que as talentosas ilustrações de André Caetano firmam em definitivo - de cães e de cadelas de estimação cuja genealogia - “Nasceu [a Pantera] há quatro anos.” (2008: 135) - a memória do Autor - que o “baú” metaforiza (2008: 137) - cristalizou em lugares de memória revisitados pela palavra. É o caso de A Girafa, “cadela branca, atravessada de galgo” (2008: 23), detentora do faro mais apurado de Tronqueira; é o caso do Alex que, numa das suas saídas de cariz sentimental e de matriz erótica, é vítima de morte por atropelamento; é o caso do Adónis (e repare-se na consciência cra­tiliana da linguagem...) que, ao longo da viagem, em segunda classe, no Inter-Regional entre Lisboa e Coimbra, se torna o centro de atenções, mercê dos seus balbu­cios caninos de estirpe aristocrática, dos militares regressando aos quartéis; é o caso do Isquininho, inventor do novo método de esvaziar gamelas graças à sua imobilização: “Passou a pôr uma pata no fundo da gamela e assim ela ficava mais que segura ao chão. E comia o resto da papa­roca à vontade e em sossego...” (2008: 62); é o caso do Ligeiro, “rasteirinho e de cauda enroscada em jeito de ponto de interrogação” (2008: 77), que sacri­ficialmente aprende os riscos da falácia da sedução, simbolizada pelas pele­zinhas de chouriço: “Ao abrir a boca, já com as peles a roçarem-lhe o foci­nho, tornou a apanhar um cachação. [...] ‘caim, caim, caim’, o rabo murcho, correu a bom correr, [...]” (2008: 79-80); é o caso da Regina Cadela, parideira de profissão e perita, por excelência, na arte da fuga matreira à actividade caninamente vigilante das autoridades do município: “A cadela-mãe sobrevi­via sempre às investidas regulares dos funcionários municipais [...] ” (2008: 86); é o caso do Schwarz, cão expatriado que, forçado pelo dono a reaprender a sua língua pátria, vai gradualmente conhecendo as tristes etapas da gaguez no latir, tor­nando-se motivo de chacota para os seus congéneres - “o Schwarz cada vez mais gago, entristecido e neurasténico...” - e debitando mal a língua de Lutero (2008: 116); é o caso do Valente, pastor alemão de envergadura, cuja fera intrepidez se vê premiada com uma injecção letal e subsequente viagem gratuita rumo à eternidade dos Canídeos: “Perdi um amigo e a minha casa um excelente guarda!” (2008: 130); é, por fim, o caso da Pantera, esse “grand danois” a caminho do matadouro por sofrer de doença perigosa; da Petruska­zinha, pekinois de luxo instigado pela ‘mamã’ Susana a comer o bifinho a bordo do Carvalho de Araújo, e da Andorinha que, no colchão do autor-nar­rador alferes, dá à luz, com intervalos de quinze, vinte minutos, seis filhotes, sendo o último “uma fêmea com parecenças com a mãe enquanto jovem cachorra...” (2008: 171).

Destarte, estão os dados lançados para o escorço de uma segunda linha de leitura, que passa obrigatoriamente pela animização e per­sonificação do canino, mediante a adjectivação, a adaptação, a comparação, o contraste e a hipálage, desembocando na caracterização indirecta de todo o ser humano (mais ao nível da etopeia – descrição caracterológica – do que da prosopogra­fia - descrição física) dono de um “cão letrado”... Assim sendo, é a “família humana” do Alex que, após o seu passamento, traja lutuosamente (2008: 40); é o José Jacinto que se vê invadido por sentimentos específicos de um “dono coruja” (2008: 69); é a Girafa que, ao invés da senhora dona Amelinha Costa, assolada pela avareza, se não coíbe de repartir o “prato das sopas de leite desnatado com o gato maltês” (2008: 25) e é o Isquininho, cão “fiel e honrado”, que, por graça divina, é agraciado com uma “Morte serena” (2008: 63). Do mesmo modo, o Schwarz, contrariamente à Maria do Socorro, declina o desejo acalentado pelo Senhor de Simas de aprender a sua língua; a Petruska espelha caracterologicamente, graças à ambiguidade de onde o lúdico não desertou, a sua dona Susana, amante de “ternura e cócegas” (2008: 161); por fim, os cães das Letras contemplam “os humanos […] com um acento tónico de sílabas de um verso bem escandido” (2008: 101), enquanto os da Faculdade de Direito se impõem pela sua sumptuosidade (2008: 108). De realçar, neste contexto específico, o recurso a certas expres­sões convencionais, convocando a tradição cristã, que inusitadamente con­templam determinados momentos da vida canídea: a Girafa humaniza-se ao receber o sacramento do baptismo, sendo esta humanização corroborada, na hora da sua morte, pela derradeira invocação: “dai-lhe, Senhor, o eterno des­canso, entre o resplendor da luz perpétua...” (2008: 34); por sua vez, não se furta o narrador a clamar “Paz à sua alma” na altura em que o Valente entrega a alma ao Criador (2008: 130) e a rogar a Deus que dê “uma boa morte” à Pantera (2008: 138).

Por intermédio de uma inversão semanticamente pejorativa, o universo parece transfigurar-se em “mundo cão” (2008: 138), habitado pelo “bicho-careta” (2008: 86) que é o homem. É, então, que irrompe a sátira social, sob forma de crítica à mentalidade estreita, sobrelevando a raça canina o ser humano: a Girafa, ao ter impudentemente relações sexuais, em público, com o galã do Calçado, escandaliza as beatas angelicais que, lestas, se encami­nham para o ofício matutino (2008: 27); um rafeiro, cão da esplanada, não refreia o desejo súbito de montar a sua amada, indiferente à turba preconcei­tuosa, mas minada pela sensualidade (2008: 91); a municipalidade, cuja pala­vra de ordem se resume eticamente a preservar os “bons costumes”, apressa-se a desinçar a via pública da indesejada descendência da Regina Cadela (2008: 85); o cão do mestre Oliveira, baptizado de Polícia, torna-se, à ima­gem do seu dono, mestre em morder o policial Beliboga (2008: 146), situa­ção caricata prenunciada pelo título Cão-Polícia ou vice-versa. A par da sátira, insiste a paródia em fazer a sua aparição em cena, mor­mente no tocante a esse hipotexto que é a erudição balofa, o discurso universitário her­mético, o casticismo de um ‘catecismo’ em desuso e o ensino que privilegia menos a reflexão salutar do que o ‘afinado’ papagueamento de verdades desactualizadas. A partir dos “cães atascados em literatura” (2008: 152) e dos “canídeos das filologias menos clássicas” (2008: 102) jorra, paulatinamente, um humorístico hipertexto (com “nuances” genettianas) denunciando quer “um dos muitos arquétipos de um arquitexto exemplificativo de certos ladra­res linguísticos de alguns cães e cadelas da semiótica” (2008: 103), quer “certas reminiscências estruturalistas no ladrar de alto” (2008: 102). Por um lado, o “professor transfigurado”, especialista na transmissão pseudo-peda­gógica das grandes correntes da crítica; por outro, o “coro dos falantes” can­tores, bons assimiladores da matéria trauteada (2008: 152). O resultado, “estupidamente real” (Idem), mais não é do que um amontoado lexical deli­rante, a desembocar no galimatias ou, talvez, no anfiguri, repassado (s) de conceitos teóricos descontextualizados e de absurdas abstracções teoréticas (2008:102). Do seio deste aranzel sobressaem tanto a parte prática da “teoria poética do luar” (2008: 151), exemplificada por um fragmento comicamente aliterativo - “Os lúbricos cães e as cadelas aluadas ululam lugubremente à lua… Os lú-bri-cos… a-lu-a-das… u-lu-lam… lu-gu-bre-mente… lu-a…” (2008: 151) -, como uma crítica velada ao decadentismo-simbolismo portu­guês (cujo corifeu foi Eugénio de Castro ao dar ao prelo os Oaristos) que, em vez de simbolismo genuíno e inovador (revisite-se Camilo Pessanha…), se ficou pela quintessência do parnasianismo...

Retomando as duas linhas de leitura que se têm vindo gradualmente a esbo­çar, indiferentes não podemos ficar à reinvenção canina a que procede Cris­tóvão de Aguiar. Na verdade, longe vão os tempos em que a canzoada se diferençava pelo pedigree, subdividindo-se em cães vadios ou rafeiros, em cães aristo­cratas ou de raça, podendo esta última categoria abarcar os galgos, os danois, os huskies e os pastores alemães, retratados com mestria no texto-imagem de André Caetano. Ora, em Cães Letrados, o conceito de canidade é diversa­mente (e enriquecedoramente...) abordado e sistematizado. Destaque-se, em primeiro lugar, a seguinte tetralogia canídea: “Cães de Esplanada”, “Cães Universitários”, “Cão-Polícia ou Vice-Versa” e “Cães Cantores”; atente-se, numa segunda etapa, no estudo denodado da caracterologia canídea condu­cente a uma taxinomia inédita: a cadela que se pauta pelos famosos relógios Longines e para a qual “o meio-dia era sagrado” (2008: 29); a cade­linha grá­vida que só aparece de manhã e à noite para cumprimentar o dono da casa - que não é o seu dono... - e os cinco colegas que nela residem (2008: 45); o cachorrinho que desfruta, com uma estudante, das Lições de pediatria, virando as folhas com a patinha direita e escapando ao pagamento de meio bilhete no Inter-Regional (2008: 54-55); o canino que se vai mantendo vivo até ao regresso dos donos da América (2008: 63); o cãozinho de orelha fita à espera da espinha e do rabo do “chicharrinho assado na sertã” (2008: 77); a cadela parideira que nunca considerou o seu corpo “res publica” (2008: 86), a cadelinha de luxo que tem um babeiro - qual “mise en abîme”! - onde apa­rece bordado “um cachorrinho de mama tomando o seu biberão” (2008: 161) e, por fim, o cão do futuro, “novíssimo cão”, totalmente informatizado e criado “à imagem e semelhança da tecnologia de ponta ou da ponta da tec­nologia.” (2008: 107). Por outras palavras, e decifrando a obliquidade da escrita, um anti-cão ou um contra-cão… Observe-se, numa terceira fase, não só a atracção de longa data do Autor pelos cães - “A minha atracção pelos cães é muito antiga. Há certas raças, porém, que me não agradam nada. Até tenho nojo de algumas dessas espécies meio exóticas: os muito pequeninos e alguns que não têm pêlo e parecem porcos...” (2008: 69) -, mas também a pertinência da sua função - “[...] acode-me à lembrança um velho professor amante de cães como eu. Chamava-lhes povoadores de solidões acumula­das.” (2008: 92-93) -, ambas desaguando num indubitável unanimismo caní­deo, quase nos antípodas do sentimento algo disfórico nutrido por uma certa raça humana, menos generosamente qualificada devido à intrusão da ironia.

“E, depois, dava ares [a Girafa] de maior esperteza do que alguns que anda­vam nos estudos.” (2008: 24).

“Falaram todos com muita propriedade e sabedura. Eu estava entre a luzidia assistência” (2008:39).

“Muito gostei de ouvir gente tão sábia sobre a matéria tão árida, ardente como as areias do deserto.” (2008: 40).

Que nos seja lícito, para concluir esta breve nota, aflorar não só o método de trabalho do escritor açoriano, como também a presença da Ilha na antolo­gia em pauta. No que respeita ao primeiro ponto, a “Nota Prévia” parece ser sobejamente esclarecedora ao alertar o leitor de todas as idades para o traba­lho incessante de depuração da escrita, identificado com um “verdadeiro cal­vário… […] sofrendo muitas alterações, cortes e acrescentos” (2008: 10). Escrita ou reescrita? No tocante ao segundo ponto, a Ilha constitui trampolim para o lirismo invadente, para a saudade inefável que Afrânio Gaudêncio aprende a definir: “Repercutiu-se-lhe então de imediato e de novo o som dos três berros. […] Três urros doídos. Em jeito de despedida. Nunca mais se podia esquecer. […] E ficarão doendo para o resto da vida. Assim acontece a todo o ilhéu desilhado. A Ilha é implacável. E vinga-se.” (2008: 162).

Livro de cães ilhéus e continentais (não falando dos estrangeiros…) para miúdos e graúdos, histórias para netos e avós e para pais e filhos, Cães Letrados só não será lido por quem tão-somente gostar - o que não deixa de ser insalubremente redutor... - de gatos literatiqueiros ou, pior ainda, de feli­nos estagnados na aliteracia.



Maria do Rosário Girão Ribeiro dos Santos

MARIA DO ROSÁRIO GIRÃO RIBEIRO DOS SANTOS doutorou-se na Universidade do Minho, com uma tese intitulada À sombra de Baudelaire. Estudo da recepção de Baudelaire na Literatura Portuguesa. De finais do Romantismo ao Modernismo. Desde então, tem vindo a leccionar disciplinas no âmbito da Literatura Comparada, Literatura Portuguesa/Literatura Francesa e Literatura e Mito, e a orientar teses de
Mestrado e de Doutoramento. O seu último livro de ensaios (no prelo) intitula-se MonsieurProust: o homem das leituras solitári

Bucareste, 4 de Março de 2009

Maia, 24 de Março de 2009

Cyrano de Bergerac

Cyrano de Bergerac
Eugénio Macedo - 1995

TANTO MAR

A Cristóvão de Aguiar, junto
do qual este poema começou a nascer.

Atlântico até onde chega o olhar.
E o resto é lava
e flores.
Não há palavra
com tanto mar
como a palavra Açores.

Manuel Alegre
Pico 27.07.2006