Contuboel, 11 de Janeiro de 1967
¾ Chegou alguma da tropa que nos vem render.
O capitão Miranda, oriundo da Mealhada, também veio. Tenho dó deles. O restante
pessoal só virá no dia em que nós daqui sairmos ¾ de hoje a uma semana, que não há instalações
para toda a gente. Neste momento procede-se à passagem de testemunho e das
armas. Quando entreguei a minha, fiquei mais leve e mais livre. Mas sempre
pensei que este dia há tanto esperado ficasse percorrido de uma alegria bem
mais funda. Tanto a sonhei ao longo destes infindáveis meses, que ela quase
toda se gastou e agora encolheu-se e ficou tristinha. Ando magro que nem
cação. Estou convencido de que tenho uma ténia agarrada à parede dos intestinos.
Quarenta e nove quilos é pouco! Já pedi um medicamento para o efeito no posto
médico e vou tomá-lo.
CRISTÓVÃO DE AGUIAR
Coimbra, 24 de Agosto de 1988
O telefone emudeceu. O carteiro não toca sequer
uma vez. O vento não pára. Os remédios não remedeiam. A dor de cabeça não
esmorece. O Sol esqueceu-se do ofício e meteu folga. O silêncio não se constrói
nem me destrói. A música não apazigua. Os jornais gritam que não querem ser lidos.
A esperança não esperneia. O calor tem frio. O frio tem fome. A fome tem sede.
A sede está farta. As ideias embranqueceram. As palavras enlouqueceram num
hospício de bolor esverdeado. O livro está atravessado no útero e não pede
para nascer. Os amigos estão morrendo. A guerra nasce das entranhas do ouro
negro. Os filhos não se deixam filhar. As filhas idem aspas, mas aspando. A
poesia virou carraça em pêlo de cadelinha. A literatura teve mais sorte e
caiu numa panelinha. A chuva esqueceu-se de se molhar. O corpo é um copo sem
espírito de bebida. Os olhos suicidaram-se. A boca caiu na lixeira. As
horas não oram. Os minutos não minutam nem deixam minutar a minuta de um
sonho. O Sol sujou-se. O céu caiu de susto. O pesadelo não se assustou. O
sonho sustou-se. Os olhos cabeceiam de sono. As mãos pediram memória a juro
porque não pagam juros de mora. As pernas colunizaram-se sobre os pés. Os pés
pediram tréguas e não sapateiam. A sapateia dançarilha no chão do longe. O
longe é uma parte da partilha ainda espartilhada. A saudade é uma Ilha
rodeada de ti. A Ilha veio pernoitar em tua cama e lá se deixou noivar. Os
mortos não se cansam de viver nem os vivos de apodrecer. A morte anda a
cavalo nos ponteiros do relógio. O relógio faz que anda, mas, no íntimo,
galopa. Os dias resfolgam nos cavalos da noite. A noite debate-se no crepúsculo
caído. As nuvens entupiram os caminhos da viagem. A viagem perdeu o navio e deixou-se
ficar no cais. O comboio não pára no apeadeiro que me coube. O bilhete que
tirei tem uma data falsa. Todas as datas são falsas sobretudo as dos aniversários.
Aniversariar é o modo conjuntivo desconjugado num tempo indefinido. Continuo
esperando diante do espelho que a minha imagem espelhada se metamorfoseie
na tua para nela me aposentar. O amor não se cansa. Assim seja!
CRISTÓVÃO DE AGUIAR
TANTO MAR
A Cristóvão de Aguiar, junto
do qual este poema começou a nascer.
Atlântico até onde chega o olhar.
E o resto é lava
e flores.
Não há palavra
com tanto mar
como a palavra Açores.
Manuel Alegre
Pico 27.07.2006